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Daiany Dantas

Casamento às cegas, machismo à vista

Não é de hoje que namoro e casamento são ingredientes do espetáculo televisivo. Quando, no início do século XX, as estrelas de cinema começaram a se tornar celebridades, tendo suas vidas documentadas e invejadas, casamentos e relacionamentos se tornaram objeto de cobertura da mídia.

O casamento como final exemplar de alguns célebres contos de fada data do século XII. Mas a experiência da mística do casamento como clímax foi incorporada pelas narrativas midiáticas com intensidade ainda maior. Deste modo, Branca de Neve, da Disney, se tornou o desenho animado que proporcionalmente mais arrecadou bilheteria na história do cinema. Inaugurando uma série de roteiros com o mesmo ponto alto: a subida da monarquia ao altar.

Mesmo passadas muitas décadas, com debates sociais sobre desigualdade de gênero e monogamia cada vez mais sofisticados, o casamento como sinônimo de final feliz é uma fórmula que, surpreendentemente, mantém o seu fascínio. Basta ter mais de trinta e cinco anos para lembrar do volumoso e interminável véu da princesa Diana Spencer subindo as escadarias da Catedral de São Paulo, em Londres, na sua internacionalmente transmitida boda com o príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica.

Romances impulsionaram a venda de publicações e filmes há mais de um século. E o casamento é o episódio de consagração social que renova a aspiração em torno dos contos de fadas, uma espécie de elo perdido do amor romântico que a cultura da mídia insiste em perseguir.

Mesmo que, após o final apoteótico, os casamentos midiáticos não preservem sua premissa de idílio entre um casal – basta ver o trágico desfecho da história de Charles e Diana –, a narrativa em torno de dois seres supostamente predestinados a serem “felizes para sempre” segue um elemento extremamente mobilizador da audiência.

Um exemplo disso é o reality Casamento às cegas Brasil, versão nacional de mais uma franquia da Endemol (mesma do Big Brother), armazenada no serviço de streaming da Netflix, desde o início de outubro.

O programa mistura os rituais de confinamento próprios a outros de seu gênero, que estimulam a competição entre pessoas colocadas em situações restritivas, à semi-infalível estética dos contos de fadas, para promover um “namoro na TV” extremo. Os e as participantes apostam todas as suas fichas numa conquista afetiva que consiste em experimentar as emoções de tentar se apaixonar por um indivíduo com o qual terão contato apenas através da voz, separados pela parede de uma cabine. E decidir, em poucos dias, se querem ou não casar com o tal ou a tal escolhida.

Dentro das cabines, não podem falar de política, nem dar pistas de suas características físicas. E tem o prazo de pouco mais de uma semana para dar match ou descartar as vozes em campo. Num processo de gamificação do amor, usam blocos de anotações para identificar as vantagens dos e das pretendentes, e tentam conquistar pontos buscando afinidade com seus parceiros e parceiras. Como num jogo de tabuleiro, ganha quem tem mais pontos.  Um riso mais alto, uma voz mais estridente, gostar de vinho, de cavalos ou ter morado no exterior se convertem em um cheque mate. Diante de opções pouco diversas e pouco tempo para reconhecer alguma intimidade, é normal que alguns participantes entrem em disputas.

Nas ante salas, mulheres e homens separam-se pelo gênero e interagem entre si. O programa é abertamente heteronormativo, não há casais homo e lesboafetivos ou não binários. No processo de reconhecimento, tornam-se competidores. As mulheres saem de cena magoadas quando dividem o interesse amoroso, os homens se apaixonam perdidamente por aquelas que atraíram a atenção de outro companheiro de jornada.

A atração física suceder o contato restrito, quando se encontram pessoalmente, não chega a surpreender. O aceite do casamento é feito às cegas, a escolha de elenco, não. Todos e todas ali parecem ter saído de um editorial de moda, com algumas raras pinceladas de diversidade. Há participantes negros e um imigrante persa. Mas todos com corpos P, no máximo um M. E visuais bastante instagramáveis.

Entretanto, o que já começa estranho e suspeito torna-se um verdadeiro show de horrores quando os casais, após se conhecerem pessoalmente, passam a dividir intimidade física e experimentar a convivência. As desigualdades começam a se acentuar e o programa assenta numa estrutura machista que é dolorosa de assistir.

A moça espontânea de riso solto que não conhecia muitos países e gastronomia judaica se torna, de repente, “chucra e pegajosa”, além de ter seus hábitos de arrumação enquadrados pelo eventual companheiro. A modelo bonitona e mãe solo que diz que precisa de alguém que goste de crianças é ridicularizada com as câmeras desligadas e assiste sua filha ser quase completamente ignorada pelo pretendente.

A gaúcha que achava ter encontrado um amor de outras vidas porque conheceu um rapaz que também havia morado no exterior, escuta do mesmo cara que dizia ser sua alma gêmea que ela seria “seu eu masculino piorado”, entre outros desaforos sobre seu trabalho, sua autonomia e seu passado, que parecem saídos de um manual de comportamento machista do século XIX.

A espera pelo famigerado dia do casamento é antecedida por ofensas e abuso psicológico. A violência sutil de proibir que a mulher beba ou fume. O aparentemente defasado gesto de se gabar do que fez na cama. Uma cartilha de ressalvas que coloca os personagens masculinos num lugar de controle, depois de exercerem suas conquistas.

A socióloga israelense Eva Illouz diz que o capitalismo colonizou o amor. Para ela, vivemos relações hiperssexualizadas, nas quais a autonomia sexual e financeira das mulheres é repreendida por uma indiferença afetiva masculina, num modo de adequar as desigualdades de gênero a este novo cenário.

Em casamento às cegas, tal revide, como instrumento de dominação e controle dos corpos das mulheres, é evidente. Uma das participantes, possivelmente a mais romântica e idealizadora do grupo de cinco finalistas, lamenta que, enquanto ela tem planos para o futuro, o parceiro age como se estivesse em final de campeonato. Mas, ele está, e seja qual for o desfecho, dificilmente será perdedor.

Perdemos, todas as mulheres, ao perceber que o elo perdido do amor romântico é tão facilmente fabricado e manipulado por figurinos e cenários que se constroem em torno de situações absolutamente desprezíveis para nós. As participantes choram ao se verem cobertas com a indumentária dos vestidos de noiva. Sobretudo aquelas que decidem, no altar, dizer um sonoro não – para uma grande parte do público este, sim, o ponto alto do reality.

No “felizes para sempre” do reality brasileiro, 3 casais disseram “sim” na cerimônia roteirizada. Destes, dizem os fofoqueiros de plantão, dois teriam terminado em seguida, um deles por telefone. O reality ganhou fãs e está virando um cult nacional. Ainda que muitos dos participantes polêmicos estejam sendo xingados na internet (não vou mentir que é uma delicinha ler pelo menos os comentários de “chernoboy”, “boy lixo” e “macho escroto” depois de presenciar tanta violência impune), a grande maioria está comemorando as centenas de milhares de seguidores que ganharam com a exposição.

Em muitos perfis nas redes sociais, observamos que eles e elas estão creditados como “ator”, “modelo” ou até mesmo “apresentador de TV”. O que passa a ideia de que o programa, como tantos outros do tipo, foi apenas um trampolim.

Para todos e todas nós, simples mortais, que ainda tentamos (cof, cof) acreditar no amor e sobreviver à decadência dos aplicativos de paquera, Casamento às cegas é uma sacudida. Nos convoca a não construirmos nossa realidade sobre contos de fadas.

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Cultura

Mulheres se juntam, fazem música e se tornam indomáveis

“Pois mulheres que caminham juntas, ninguém é capaz de domar”. Esse trecho da música “Afroameríndia” expressa muito bem o estilo e a força que tem a CoisaLuz, uma banda formada por mulheres que cantam, encantam, revolucionam e espalham muita luz.

Talento, musicalidade, criatividade e feminismo. Esses são os elementos da química que une Bianca Cardial, Dayanne Nunes e Flávia Fagundes, três mulheres artistas que respiram música, esbanjam talento, graciosidade e muita força.

A banda CoisaLuz nasceu em outubro de 2019 por acaso. Bianca conta que havia recebido um convite para cantar em um evento denominado de “Feira das Bruxas” e diz que, na época, não reunia experiência necessária para assumir o compromisso sozinha. Foi então que surgiu a ideia de convidar a cantora Dayanne Nunes para se juntar a ela nesse evento. A partir desse convite, mais duas mulheres foram convocadas a somar para completar a apresentação, a professora de música Flávia Fagundes e a violonista Roberta Lúcia. O show, segundo elas, deu super certo e foi desse evento que surgiu a ideia de formar a banda CoisaLuz.

INFLUÊNCIAS

O estilo da banda, segundo as integrantes, é influenciado pelo ritmo africano, pela musicalidade brasileira e pelos elementos da natureza. “A nossa inspiração vem da mãe natureza, das plantas, da terra, da água, do fogo, do ar, lua, sol, irmandade e autoconhecimento. As nossas composições vêm de dentro pra fora”, explica a cantora Dayanne.

Dayanne comenta que, inicialmente, o repertório da banda era composto por músicas de artistas que expressassem feminismo e a força da mulher. Porém, com a pandemia, os shows foram paralisados e o tempo em casa serviu para que as artistas começassem a compor suas próprias músicas. “Fomos juntando ritmo, pesquisa, elementos da natureza, os nossos sentimentos, colocamos todas essas inspirações no papel e musicamos. E quando nos demos conta estávamos compondo nossas próprias músicas”, explicou.

ANCESTRALIDADE

A banda CoisaLuz está prestes a lançar um clipe da música Afroameríndia, carro-chefe do EP só com músicas autorais (EP – sigla que vem do inglês “extended play”, usada para um disco longo demais para ser um single, geralmente com duas faixas, e curto demais para ser um LP, ou “long play”, de cerca de doze músicas). Bianca explica que Afroameríndia foi uma grande revelação pra banda, porque surgiu de uma pesquisa sobre ancestralidade. “Nessa pesquisa que estava sendo desenvolvida por uma amiga eu descobri que tinha uma bisavó indígena, eu sou negra, então a junção dessas duas raças com a nossa ideia de formar uma banda só de mulheres que pudesse mostrar força, expressão e arte resultou na música Afroameríndia que é também o tema do nosso EP”, detalhou.

Flávia é professora de música na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Segundo ela, o convite para fazer parte da banda surgiu de uma forma bem descontraída. “Eu conhecia Dayanne e ela me ligou me chamando para tocar pandeiro em um show e eu respondi: ‘quem disse que eu sei tocar bandeiro mulher?’ Mas fui, deu certo e estamos seguindo o projeto com muito entrosamento e irmandade”, revelou Flávia.

O trabalho da CoisaLuz vai muito além de compor e cantar. As três integrantes da banda são responsáveis por toda a produção dos cenários, dos figurinos, da imagem da banda. Levam tudo muito a sério, qualidade do som, iluminação, ambiente, tudo é sempre cuidadosamente avaliado por elas. “Quando começamos, não tínhamos a menor ideia que a coisa ia tomar essa proporção, então essa nossa ideia se tornou coisa séria e dedicamos boa parte de nosso tempo à banda CoisaLuz”, ressaltou Bianca.

“Quando começamos não tínhamos a menor ideia que a coisa ia tomar essa proporção…”

INCENTIVO

Bianca relata que quando a banda começou a fazer shows, elas foram orientadas a buscar incentivos culturais e a CoisaLuz acatou a sugestão e começou a participar dos editais. “Começamos a nos inscrever nos editais e deu muito certo, fomos contempladas em três editais e com os recursos estamos investindo no projeto”, destacou.

O nome da banda segue o mesmo padrão da formação, por acaso. Dayanne explica que durante uma conversa elas estavam buscando um nome diferente e que representasse o que elas queriam passar para o público. “Eu pensei em uma coisa que fosse diferente, mas que ao mesmo tempo espalhasse luz e foi então que surgiu a ‘CoisaLuz”, revelou.

Nos projetos futuros, a banda está prestes a gravar um clip através da Lei Aldir Blanc de Incentivo à Cultura e pensa também em gravar um CD. Os convites para participar de projetos culturais não param de chegar. “A CoisaLuz hoje é uma empresa e estamos muito empenhadas em fazer o melhor para que continue dando certo”, concluiu Bianca.

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Política

Marleide Cunha – Uma Maria na luta por igualdade social

Por Sayonara Amorim

Uma vida inteira marcada pelo trabalho e pela luta por igualdade social. Uma mulher que aos 13 anos de idade iniciou sua trajetória de trabalhadora como operária em uma fábrica de doces. Sempre estudou em escola pública, mas precisou conciliar os estudos com o tralho e enxergou na educação uma saída para transformar realidades. Maria Marleide da Cunha Matias, mulher, mãe, trabalhadora, potiguar, nordestina, brasileira. Uma Maria que, assim como muitas outras Marias, conhece muito bem os efeitos que a desigualdade social causa na vida dos brasileiros pobres, em especial das mulheres.

Professora e mestre em educação, Marleide adotou como bandeira de luta a defesa dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores. Hoje vereadora de Mossoró pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em seu primeiro mandato, a parlamentar que tem como característica forte a fala incisiva em defesa dos menos favorecidos continua sendo alvo de ataques e tentativas de calar sua fala. “Eu sempre vou ser alvo de violências porque eu não me calo”, revelou Marleide, se referindo aos ataques que sofre e sempre sofreu por denunciar, defender e revelar casos de injustiças e desigualdades contra as trabalhadoras, os trabalhadores e a população menos favorecida.

“Eu sempre vou ser alvo de violências porque eu não me calo…”

Há pouco mais de uma semana, a vereadora Marleide Cunha foi duramente atacada de forma verbal em pleno parlamento por se posicionar contrária a um fato exposto durante a sessão na Câmara de Mossoró. O agressor, um colega vereador, não mediu palavras e, em uma clara demonstração de ódio, a taxou de cadela ao comparar sua fala com latido de um cão. Porém, nem mesmo a gravidade da agressão foi capaz de sensibilizar os demais colegas, com exceção de um casal de vereadores que se manifestou para defender a mulher política que estava, tão somente, exercendo o seu direito de expressão.

Marleide relata, durante entrevista para a revista Matracas, que os ataques contra ela fazem parte de sua trajetória. “Quando adolescente eu não pude participar dos movimentos estudantis, porque precisei trabalhar, mas sempre me engajei nas lutas sindicais porque eu sabia que precisava lutar para garantir meus direitos de trabalhadora e de toda a categoria. Portanto, desde que comecei como integrante dos sindicatos, sofro ataques porque sempre enxerguei as injustiças e nunca me conformei com elas”, declarou.

“Quando adolescente eu não pude participar dos movimentos estudantis, porque precisei trabalhar…”

“PERSONA NON GRATA”

Persona non grata é uma expressão em língua latina cujo significado literal é “pessoa não agradável”, “não querida” ou “não bem-vinda”. De todas as violências sofridas até então, receber esse título foi marcante para Marleide. O fato aconteceu no ano de 2019, durante uma luta dos trabalhadores da educação. Na época, Marleide era também a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação. O título de “Persona non grata” foi concedido pelos vereadores de Mossoró.

Foi exatamente nesse período que, apoiada por seu companheiro (in memoriam), Marleide tomou a decisão de se candidatar à vereadora. “Eu não me conformei com aquele título e me perguntava o tempo todo: meu Deus o que eu fiz de tão grave para receber essa denominação? Enfrentei a campanha, venci e quando me tornei vereadora a Câmara teve que retirar esse título que havia sido atribuído a mim. Eu não me conformei, porque sabia que não havia feito nada de ruim para merecer ser chamada de persona non grata. Felizmente esse título foi retirado e eu continuo lutando por dias melhores, por igualdade, pela não violência, por políticas públicas e por respeito”, declarou.

“Eu não me conformei, porque sabia que não havia feito nada de ruim para merecer ser chamada de persona non grata…”

REPRESENTATIVIDADE FEMININA

Em 1995 foi criada uma legislação específica que prevê cotas eleitorais: a Lei 9.100, que estabeleceu normas para a realização das eleições municipais de outubro de 1996, dispondo sobre a reserva do percentual mínimo de vinte por cento (20%) das vagas para candidaturas de mulheres. Para a vereadora Marleide, a criação da lei é importante no sentido de que antes não existia nada, porém, ainda não conseguiu atingir o propósito e parece distante de grandes mudanças nesse cenário.

“A gente considera importante porque antes não existia nada…”

No contexto local, por exemplo, a política continua sendo um espaço de dominação masculina e isso tem consequências diretas na institucionalização da democracia representativa.

Marleide identifica esse problema com muita preocupação. Segundo ela, a falta de representatividade das mulheres no Legislativo em Mossoró, por exemplo, é sentida no debate público em torno de questões que envolvem a mulher, de projetos que muitas vezes não são considerados pela bancada masculina como importante e acaba havendo uma resistência na aprovação desses projetos. Uma realidade que chega a outras esferas de poder.

Ela acrescenta que as mulheres ainda têm dificuldade de se inserirem nesses espaços e isso se deve, também, à exclusão histórica das mulheres na política e que, embora venha progredindo essa participação, ainda está longe do desejado e do que é preciso.

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Cultura Destaque

Banda Scream Out – Lugar de mulher é tocando rock sim!

Na guitarra Hannah Melo, no baixo Laysa Santiago e na bateria Zara Caroline. Três mulheres com gostos incomuns pela música rompem a barreira do som, quebram tabus, normas e regras e decidem formar uma banda. A primeira banda de rock de Mossoró formada totalmente por mulheres. Eu me refiro à Scream Out, denominação que em português significa “gritar”, nome escolhido propositalmente para dizer que uma banda formada só por mulheres estava chegando para ocupar seu espaço e fazer muito barulho.

A denominação da banda se encaixou perfeitamente com a proposta das integrantes, que é mostrar que lugar de mulher também é no palco tocando e cantando rock. O estilo da Scream Out reúne as várias vertentes do rock. Elas uniram os gostos particulares de cada uma e essa junção resultou no trabalho que está sendo apresentado nos palcos da noite mossoroense.

A Scream Out tem pouco tempo de estrada, mas já coleciona fãs e uma agenda bem movimentada. A banda se apresentou pela primeira vez no dia 26 de junho deste ano e de lá pra cá vem traçando um caminho vertical. O repertório, cuidadosamente selecionado, inclui: indie rock, pop rock e heavy metal. Nos shows, que as meninas da Scream Out costumam chamar de “tocadas”, são apresentados covers de nomes nacionais e internacionais como: Artict Monkeys; Autoramas; White Stripes; Supercombo; Two Door Cinema Club; Interpol; The Cramberries; Pitty; Pink Floyd; Katy Perry; Amy Winehouse; Nirvana; Kings of Leon; Bon Jovi; Green Day; Maneskin; Audioslave; Red Hot Chilli Peppers; Foo Fighters; Muse; Cássia Eller; Legião Urbana; Scorpions; Marilyn Manson; Deftones, etc.

O INÍCIO

A ideia de montar uma banda só de mulheres partiu de Hannah, que convidou Laysa e por fim o convite foi feito à Zara que aceitou de imediato. Apesar de cursar veterinária, Zara respira música desde criança e conhece bem vários instrumentos. Segundo ela, o potencial de cada uma das integrantes é suficiente para executar qualquer repertório.

Zara conta que a escolha pelo instrumento bateria foi proposital mesmo. “Eu toco desde os oito anos de idade, tocava na igreja e todos os instrumentos que aprendi a tocar foi sozinha. Eu era sempre o quebra galho na igreja, quando faltava algum instrumentista eles me chamavam para substituir. Mas o meu instrumento por definição é a bateria. Eu comecei a tocar bateria há uns cinco anos na igreja da qual eu faço parte. A banda da igreja precisava de um baterista porque há muito tempo não tinha e me fizeram a proposta para tocar bateria, me deram o repertório para ensaiar e em menos de um mês eu já estava afinada”, detalhou. Ela continua dizendo que tem verdadeira paixão por bateria e inclusive acompanha o trabalho de algumas bateristas mulheres e é fã da baterista Nina Pará, inclusive tem uma tatuagem da artista. “Outra coisa que fez me apegar à bateria é que é um instrumento bem machista, os homens acham que só eles podem tocar bem e nós mulheres bateristas estamos aqui para provar o contrário”, declara Zara.

A guitarrista Hannah teve que enfrentar outros obstáculos para seguir na música e tocar guitarra, instrumento que domina muito bem. Ela explica que o machismo dentro de casa impediu que sua família a apoiasse. Porém, munida de uma característica muito particular das mulheres, a coragem, arregaçou as mangas, foi pra escola de música aprender a tocar guitarra e hoje é um dos destaques da banda Scream Out como guitarrista.  “Eu comecei a tocar com 16 anos e na aula de música eu era a única mulher que estava aprendendo a tocar guitarra. A música sempre esteve presente na minha vida, mas ao contrário de Laysa e Zara nunca tive incentivo em casa, o apoio pra seguir fazendo o que gosto vem do meu namorado que também é músico e das meninas da banda”, relata Hannah, que também é fisioterapeuta.

O primeiro ensaio foi dia 23 de fevereiro deste ano. “Nós já tínhamos definido que formaríamos a banda e que o nosso estilo seria rock, então começamos a ensaiar. Logo no primeiro ensaio, já percebemos uma conexão muito boa e vem sendo assim a cada vez que nos reunimos para montar um show”, detalhou Zara.

Desafiar. Essa é uma palavra que faz parte do dia a dia da banda Scream Out. Laysa, que é multi-instrumentista e desde muito criança toca instrumentos como flauta, teclado e violão, sabe muito bem o que significa ser desafiada. Mostrar que é capaz e que não há limites pelo fato de ser mulher é uma tarefa que ela desempenha com o mesmo prazer com que sobe aos palcos. “Eu ainda não tocava baixo e na banda precisava de uma baixista e o que eu ouvi foi que era muito difícil tocar baixo e cantar ao mesmo tempo, que era o que eu estava me propondo a fazer. Disseram até que era impossível. Foi então que decidi provar o contrário, apendi a tocar baixo e na banda eu canto e toco baixo sim”, afirmou Laysa.

A banda Scream Out, em apenas quatro meses no cenário musical de Mossoró, já acumula participações marcantes em shows realizados em vários pubs da cidade. “A primeira vez que subimos no palco como banda foi para fazer uma participação em um show e já nos emocionamos, porque a ideia era cantar apenas três músicas e o público pediu mais e foi muito massa. A partir daí começamos a montar um repertório completo e desde então estamos sempre recebendo convites para tocar em algum lugar e tudo está sendo muito maravilhoso. Estamos amando esse nosso projeto,” completou Hannah.

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Destaque Gerais

Engenheira agrônoma quebra preconceito e assume a cabine do trator

Em todo o contexto histórico da humanidade a luta das mulheres pela  igualdade de gênero nos espaços sociais tem sido constante. Ainda hoje, século XXI, na era da informação, das transformações tecnológicas, as  mulheres seguem se mobilizando, não só para obter direitos óbvios, como também para manter os que já foram conquistados. No cenário brasileiro, desde o direito ao voto feminino, em 1932 – concedido apenas às mulheres casadas, com autorização dos maridos, e para as viúvas com renda própria –, quando a Constituição Federal passou a permitir a participação das mulheres na política, à criação e liberação da pílula anticoncepcional, em 1960, o universo feminino é, sem dúvidas, permeado por exclusão, protestos e desafios. Cada conquista celebrada é resultado de movimentos revolucionários de uma ou de muitas de nós. Não existe romantização no processo. O percurso é mesmo tortuoso. Porém, toda mulher é capaz de abrir os próprios caminhos e de outras companheiras que seguirão o atalho.

Jane kelly Holanda, 41 anos de idade, faz parte de um grupo seleto de mulheres precursoras. Engenheira agronômica por formação, Jane é ciente de que as únicas diferenças entre homens e mulheres são fisiológicas e anatômicas, pois todo o resto é construção social. Logo, o que não é bom pode ser modificado. A cultura está sempre em transformação. Dessa forma, ela lidera grupos e mais grupos formados majoritariamente por homens.

Jane ocupa o cargo de primeira instrutora do curso de operação de tratores no  Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), em Mossoró, RN.  Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), ligados ao levantamento estatísticas de gêneros, revelam que, apesar de mais instruídas que os homens, as mulheres ainda enfrentam dificuldades em ocupar funções de liderança e chefia no mercado de trabalho. Somente 37,4% dos cargos de comando, em 2019, pertenciam a elas, além disso, no mesmo ano, as mulheres receberam 77,7% do rendimento dos homens, enquanto ocupavam cargos gerenciais com maior remuneração e responsabilidade. Em meio a uma seara masculina, a instrutora aparece na liderança profissional. “Desde cedo gostei de carros e sempre busquei me especializar naquilo que faço. Quando aceitei o desafio de ministrar o curso, passei por um treinamento de uma semana e hoje conheço o trator como ninguém”, afirma.  Ela compartilha que na rua já sofreu preconceito por estar ao volante de um carro sendo mulher, mas nunca se deparou com essa realidade durante a aplicação dos cursos. No entanto, a instrutora reforça: “a área agrícola precisa abrir os horizontes para mais mulheres, valorizar o trabalho dos grupos, de forma que todos possam usufruir da igualdade de direitos e deveres no campo”. Este é, portanto, o desafio das ciências agrárias e da humanidade pelos próximos anos.

Com os pés fincados no presente, Jane planta os olhos no futuro e sonha com mais abertura profissional. “Aos poucos vamos quebrando as barreiras, mostrando que temos as mesmas capacidades”, enfatiza. Ainda segundo ela, o caminho capaz de levar a esse ponto é a capacitação profissional aliada à persistência em relação aos ideais. É exatamente o que temos feito ao longo dos séculos. Cada passo conta. Para se ter uma ideia, quando Jane fala em capacitação/educação, é interessante lembrar que somente em 1879 as portas das universidades foram abertas às mulheres. Muito mais tarde, em 1988, a Constituição Brasileira passou a reconhecer as mulheres como iguais aos homens.

Ainda assim, um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em março de 2020, revela que 90% da população mundial têm algum tipo de preconceito contra mulheres. A análise mostra que o prejulgamento existe por parte de ambos os sexos, homens e mulheres. Entre os entrevistados, em 75 países, 90,6% dos homens e 86,1% das mulheres mostraram ter ao menos um preconceito na questão que envolve igualdade de gêneros. No Brasil, 89,5% revelaram ter ao menos um preconceito contra mulheres. A pergunta que surge é: como utilizar o trator e atingir as raízes de uma questão histórica para adubar a terra?

A força de ser quem somos

A verdade é que as mulheres já avançaram em diversas frentes, sendo que há muito tempo a força física deixou de ser atributo de sobrevivência, já que a Pré-História ficou para trás. Vivemos, agora, um período de transição e de transformações significativas, onde Jane kelly é uma mulher que transforma e abre portas para outras professoras ou tratoristas que devem chegar e, também, revolucionar a área agrícola daqui a alguns anos. Se no passado as coisas não eram favoráveis às mulheres, hoje temos o poder de colher os frutos plantados por nossas ancestrais e o dever de semear o campo em busca de novas colheitas. Nenhuma semente há de se perder neste chão fértil pelo machismo estrutural, ainda que, às vezes, a força mortífera dos fertilizantes e a estiagem desanimem. Estamos no caminho direcionadas a preparar o campo, com pés firmes no acelerador e mãos concentradas na direção.

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Mulheres Empreendedoras

FRI Naturais

A Fri Naturais nasceu com o objetivo de modificar pensamentos e atitudes, transmitindo autoconhecimento e fortificando a nossa relação com o mundo. A empresa desabrocha da necessidade de um projeto consciente e sustentável, a partir da cosmetologia natural. Luara Jales convida você a conhecer esta proposta para construir juntos o conceito de liberdade, exercendo o autocuidado que muda o mundo.

Instagram @frinaturais

WhatsApp : 84 9621-9253

Email: luara_jalesalmeida@hotmail.com

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Violência contra mulher

Cordelistas de todo o país se mobilizam contra o machismo na literatura de cordel

A invisibilização de escritoras e poetas mulheres na literatura brasileira atravessa a história. No mundo da escrita, universo que por séculos foi de dominação masculina, muitas escritoras tiveram que lutar para garantir seus espaços, algumas tiveram que recorrer ao anonimato, pseudônimo masculino, para terem suas obras publicadas.

A escrita literária feminina tem ascendido ao longo da história, mas a literatura continua sendo, também, um espaço de resistência das mulheres.  Para as mulheres que atuam na Literatura de Cordel, por exemplo, a luta contra o machismo continua e levantou uma grande mobilização. Através do Movimento Nacional das Mulheres Cordelistas Unidas em Combate ao Machismo, as mulheres tentam denunciar as variadas formas de violência sofridas nesse espaço.

De acordo com a cordelista Izabel Nascimento, o movimento foi uma resposta aos ataques históricos que todas as mulheres sofrem individual e coletivamente no cordel. “Ele teve início durante um encontro virtual da Feira Literária de Campina Grande, em 27 de junho de 2020, onde participei de uma Mesa ao lado dos cordelistas e amigos Aderaldo Luciano (RJ) e Nando Poeta (RN), ressaltei a presença da mulher no cordel. Ainda durante a live, mais precisamente no chat, sofri ataques, que se multiplicaram em grupos de WhatsApp. Deste evento, surgiu o Movimento Nacional das Mulheres Cordelistas contra o Machismo”, explica.

A mobilização ganhou força a partir da nota de repúdio que foi feita na ocasião e compartilhada nas redes sociais. Atualmente dezenas de coletivos de mulheres, dentro e fora do universo da poesia, estão engajados nas ações. Izabel confirma que até o momento mais de 1500 nomes já integram a luta, inclusive nomes que chegaram potencializando a luta como o de Maria da Penha, Monja Cohen, Socorro Lira, Camila Mendes e outras.

O machismo sofrido pelas cordelistas não difere do machismo que ocorre dentro da sociedade, conforme constata Izabel. “Não se trata apenas de um problema isolado, ou de uma lista com itens que afetam somente as mulheres cordelistas. O machismo que está estruturado e profundamente enraizado na sociedade também se manifesta no cordel. Este é o ponto principal da nossa denúncia: dizer que há machismo no cordel, ao contrário do que se imagina. A tentativa de apagamento, o assédio, o desrespeito, a objetificação da mulher são pés através dos quais o machismo caminha também no universo poético cordelista.

Izabel defende que o cordel tem um potencial gigantesco no diálogo com a sociedade, inclusive, atuando em outras bandeiras de lutas sociais como a homofobia e racismo. “Historicamente, o cordel tem narrativas do cotidiano que levantam importantes discussões. Quando o movimento nacional das mulheres cordelistas denuncia o preconceito e promove um debate sério e profundo dentro de uma sociedade ainda fechada para nós, estamos também fazendo outras denúncias de apagamento, preconceito e exclusão. Desse modo, nossa luta está sim, engajada às lutas contra o racismo e a homofobia, que também são marcados no cordel brasileiro.

A hashtag Cordel sem Machismo ganha força e adesão

O movimento vem se fortalecendo a cada dia e tem contado, também, com o apoio de parte dos cordelistas homens.  “A luta tem sido articulada através das redes sociais, canais de comunicação, no YouTube e Instagram. Dentro das ações vem sendo realizadas palestras, encontros e vídeos informativos. Acessando a Hashtag #cordelsemmachismo é possível acessar muito do que foi produzido e divulgado nas redes. O coletivo também formou um grupo de estudos chamado Estante Feminista para estudar, compreender e valorizar a produção acadêmica feminina sobre o cordel. Temos um planejamento para as próximas ações, que divulgaremos em momento oportuno”, destaca.

O “Cordel sem Machismo” certamente já colhe bons resultados. Ainda segundo Izabel após o movimento, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) elegeu como Presidenta a cordelista e médica Paola Torres. “Uma ação que, mesmo não estando diretamente ligada ao movimento, faz parte, certamente, dos desdobramentos das lutas das mulheres na sociedade. Para mim, a Academia tem muito a ganhar com a presença feminina liderando a instituição, tanto pela capacidade, responsabilidade, talento e respeito com o qual a Dra. Paola conduz o cordel, quanto pelo que significa neste momento da História, uma mulher nos espaços de liderança, até que não seja mais uma novidade liderarmos”, diz.

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Lutas Feministas

Desafios de criar filhos sozinhas e a cobrança da sociedade pela “mãe maravilha”

Independentemente do contexto familiar em que a mulher exerça a maternidade, ser mãe, por si só, já é um grande desafio. Ser mãe solo, enfrentar a responsabilidade de educar, cuidar e, muitas vezes, assumir sozinha as obrigações financeira da casa, tendo até que enfrentar o desemprego, a missão se torna ainda mais desafiadora. Medo, insegurança, sobrecarga, julgamentos fazem parte da vida de mulheres que criam filhos sozinhas e que, não raro, precisam administrar tudo isso enquanto sofrem com os impactos psicológicos que inevitavelmente surgem.

Vanessa Dantas cuida de dois filhos: Suilly de 13 anos e Samuel de 5 meses. Sem rede de apoio e sem ter com quem dividir os cuidados, o cansaço físico e psicológico já interferem na saúde mental dela. Estresse, cansaço, ansiedade, medo de não conseguir arcar com a responsabilidade são sentimentos que ela carrega enquanto precisa lidar com a sobrecarga de maternar. “São muitas as dificuldades. Acaba que as tarefas são sempre da gente. Não temos com quem contar no dia a dia em casa e isso deixa a gente muito sobrecarregada, exausta”, desabafa.

Sabemos que a criação de um filho vai além de amar, cuidar e educar. Mães que arcam sozinhas com essa responsabilidade também sofrem por outras questões. Numa sociedade patriarcal, machista, essas mulheres também enfrentam o preconceito social. Vanessa conta que as perguntas invasivas são comuns. “Sempre tem alguém questionando o porquê do pai do meu filho não está comigo. E quando essas pessoas que perguntam sobre minha vida não têm minhas respostas elas deduzem a resposta que gostariam de ouvir e descrevem a minha vida a partir de uma realidade que elas não conhecem e quase sempre de forma depreciativa”, frisa.

Além dos comentários invasivos, outros tipos de preconceitos são enfrentados. Ela conta que quando esteve à procura de uma casa para alugar, a pergunta que foi feita como requisito para que ela pudesse alugar o imóvel foi se ela não tinha marido. “Inclusive perdi a preferência da casa por não ter um companheiro”, conta.

Vanessa teve duas gravidezes difíceis. Durante a primeira, aos 15 anos, ela perdeu o pai da filha, vítima de assassinato. A segunda, e recente gravidez, veio sem ser planejada, no momento crítico da pandemia, e um fator ainda mais difícil é que o pai não reconheceu o filho. “Meu filho não foi registrado com o nome do pai. Em meio a toda essa situação difícil, veio o medo de não conseguir administrar a situação sozinha, principalmente, pela instabilidade financeira”, frisa. A rede de apoio ela não teve, o acolhimento também não, mas comentários invasivos e desrespeitosos sobre sua última gravidez foi o que não faltou. Uma sociedade em que exige a perfeição das mães, mesmo quando estas não têm tempo nem para viver, o resultado não poderia ser outro: mães adoecidas. Vanessa diz que toda a situação em que se viu inserida veio como um gatilho para as sucessivas crises de ansiedade e pânico.

Mulheres que criam filhos sozinhas têm muitos desafios em comum. A sobrecarga de trabalho, a insegurança em relação à instabilidade financeira, falta de apoio, preconceitos e julgamentos são coisas que elas enfrentam mesmo que estejam em realidades de vida diferentes. São cobradas constantemente, enfrentam dificuldades financeiras na maioria dos casos e ficam lá, carregando suas dores e frustrações, enquanto maternam silenciosamente como se fosse leve e tranquilo, sempre.

Cristiane Ferreira, mãe de três filhos: Kaio de 13 anos, Christian, 4, e Cayron, 5 meses, trabalha nove horas por dia numa fábrica de roupa. Sai de casa todos os dias às 5h, pois ainda tem que deixar as crianças na casa de uma prima. Dos três filhos, o pai dos dois primeiros chega junto na responsabilidade financeira, porém, nenhum deles é presente no dia a dia das crianças e na divisão de responsabilidades.

“Tudo fica mais difícil ser mãe sozinha e ter que arcar com a responsabilidade que também é do pai. Tento proporcionar o melhor que posso. Todos os dias fico pedindo a Deus força e determinação para que nunca falte nada para eles”, diz.

Com uma rotina puxada, pois trabalha o dia todo e à noite tem que ter disposição para cuida das crianças e da casa, Cristiane aproveita o fim de semana para se dedicar às crianças e oferecer algo diferente do estresse diário. “Fico com eles assistindo televisão e brincando quando tenho tempo. O meu tempo é corrido e cansativo porque quando consigo colocá-los para dormir já é meia-noite e já estou exausta”, conta.

Da solidão das mães solo, quem fala?

Para além do amor incondicional pelos filhos, existe a exaustão e a necessidade de também sentir que tem vida e que precisa de momentos só para si. Além das questões de ordem financeira e da sobrecarga de trabalho, Vanessa e Cristiane têm muitas coisas em comum: enfrentam o julgamento da sociedade, a falta de uma vida social e a falta de tempo para elas. As duas deixam claro que quando falam de solidão elas não se referem à falta de um homem, de relacionamento amoroso, mas a falta da companhia de amigas e amigos, falta de um momento de lazer, de uma viagem, de um passeio ou qualquer situação que não seja apenas maternar.

“Tenho poucas amigas que me dão a mão. Família sei que posso contar com poucos, mas sou grata aos que ainda tentam me ajudar. Afinal, todos têm seus problemas. O que posso dizer é que ser mãe é um misto de sofrimento e dor que temos que conciliar com o amor que sentimos pelos nossos filhos”, destacou Vanessa.

“A sociedade julga muito, as pessoas falam o que não devem. É horrível ter que ouvir coisas desagradáveis de quem não conhece a nossa realidade. Ninguém chega para apoiar, a maioria chega para apontar o dedo. A maioria das mães solo não conta com a acolhida da sociedade. Na maioria das vezes, quem se aproxima é para fazer comentários indiscretos e nos deixar mal, julgar nosso formato de vida. Ser mulher numa sociedade machista é difícil e ser mulher e mãe solo o desafio é maior ainda”, acrescenta Cristiane.

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Ser Mulher 

Ser mulher na verdade é muito além
De um corpo bonito e sedutor,
Nesse mundo atual onde ninguém
Nos enxerga e nem sempre dá valor.

Ser mulher tem causado desconforto
Para aqueles que calam nossa voz,
E o machismo tão vivo deixa morto
Qualquer tipo de amor que vem de nós.

Ser mulher é ser mãe na madrugada…
Que não dorme e amanhece já cansada,
Por cuidar do seu filho a noite inteira,

Ser mulher é lutar diariamente
E ainda ser criticada duramente
Por quem acha que tudo é brincadeira.

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Todos os dias são de luta

Não! Não dê flores belas sem afeto
Pois o ramo sem flor murcha no galho…
Pétalas não, não tem alma de objeto
Porque podem chorar gotas de orvalho.

Não esconda por trás da rosa a culpa
Pelos atos machistas de um regime,
Rosas não forjarão uma desculpa
À carícia que sela a mão do crime.

E ao invés de somente cumprimentos,
Faça parte da voz dos movimentos
Defendendo os direitos entre iguais…

Não queremos ter flores que nos firam,
Os silêncios que já nos consumiram
Hoje não poderão nos calar mais!