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Mulheres formam comitês populares de luta para discutir a reconstrução do país

O ano de 2022 é, sem dúvida, de grande impotência para o futuro do Brasil. Diante de todo o retrocesso que o país vem sofrendo, dos efeitos destrutivos do atual governo, do aumento no preço dos alimentos, do índice de desemprego, de pessoas em situação de vulnerabilidade, não há outro caminho que não seja levantar uma base forte de luta. 

É apostando nas mudanças que o ano apresenta e com foco na esperança de que é possível um novo Brasil, que movimentos e organizações populares em todo o país vem se articulando através da construção de comitês populares na ideia de, junto com o povo, debater sobre soluções para os principais problemas sociais. O objetivo é criar movimentos fortes e bem articulados que possam discutir sobre a reconstrução do Brasil.

Em Mossoró, essa jornada de luta já está acontecendo. Mulheres de diversas organizações vem realizando encontros mensais, com o intuito de construir esses espaços pelos quais a militância recebe orientação sobre como mobilizar sua comunidade e trazer mais gente para a luta. A proposta é construir diálogos nos bairros, com a classe trabalhadora e a sociedade em geral, assegurando uma luta que inclua a participação de todas as classes sociais. 

Segundo Michela Calaça, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), os comitês populares de lutas são espaços de diálogos sobre o Brasil que a gente quer. “Espaços onde a gente quer conversar com as pessoas sobre o preço do alimento, ampliação da violência, qual o projeto que elas querem para o país. Eles pretendem conversar com todo mundo, com todas as pessoas que tiverem interesse em construir um país melhor, sem fome, um país que seja, de fato, para todos e todas. O comitê popular é esse lugar de debate de que país a gente quer construir”, destaca. 

Michela acrescenta ainda que o objetivo é proporcionar um espaço para que as pessoas possam falar sobre o que estão vendo acontecer no país e como tem impactado na vida dessas pessoas o aumento do preço combustível, o aumento do preço dos alimentos, a falta de transporte público, entre outros problemas como o crescimento da violência homofóbica, que vem sendo registrada em Mossoró. 

Para Layanne Alencar, gastrônoma, mestra em ciências naturais e também militante da Coletiva Motim Feminista/AMB-RN, a formação e atuação dos comitês populares é fundamental para reconstruir um país melhor para todos, todas e todes. Ela acredita que por meio desses espaços organizativos é possível fortalecer a luta por um país mais justo. 

“Precisamos urgentemente debater pautas sociais que são chave para superarmos nossa condição atual a qual o capitalismo traz, que massacra a vida de milhares, sobretudo povos tradicionais – indígenas, quilombolas e pesqueiros -, pessoas da periferia, além de devastar desenfreadamente nossa biodiversidade em função do lucro de poucos”, ressalta. 

Mesmo tendo que dividir o tempo entre os estudos e o trabalho, Layanne tem disponibilizado espaço para luta, sendo uma das que atua na formação dos comitês. 

“Devemos agir enquanto ainda podemos reverter esses quadros e o Projeto Brasil Popular traz consigo uma perspectiva muito interessante de como podemos seguir adiante, fornecendo a base teórica e mecanismos práticos para construirmos esse sonho possível”, diz. 

As reuniões acontecem mensalmente e é um espaço aberto a todos e todas que queiram somar nessa luta de reconstruir o país. Além de tratar dos principais problemas, os comitês são espaços para pensar que as mudanças são possíveis. 

“É também um espaço para pensar esperança, pensar como mudar esse cenário. Os comitês vão estar em todos os bairros, todos os lugares, e neles é só chegar, caso tenha interesse em discutir um país melhor, uma expectativa de esperança”, Michela.

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Escritora Ana Cláudia Trigueiro fala sobre o livro “Deep Blue”

A Psicóloga e escritora potiguar, Ana Cláudia Trigueiro, conversa sobre o seu 9º livro “Deep Blue”, obra voltada para o público juvenil, porém é leitura recomendada para todas as idades pela importante reflexão abordada no título. 

Dedicada a leitura desde os seis anos de idade e apaixonada por literatura, Ana Cláudia tem sua marca registrada no universo da escrita feminina no Rio Grande do Norte, sendo hoje um dos principais nomes da literatura potiguar. Com várias publicações disponíveis, ela escreve contos, crônicas, romances históricos e, no momento, vem trabalhando a divulgação do Deep Blue, seu último trabalho que, como ela mesma afirma, é uma das suas maiores paixões enquanto escritora.  

No Deep Blue a psicóloga vai abordar, entre outras temáticas, a solidão dos adolescentes, uma história contada a partir da personagem Safira, uma das mais marcantes na escrita autora ao longo de sua jornada literária. Segundo Ana os jovens e adolescentes tem sido a principal inspiração quando a ideia enquanto escritora é contar histórias. 

O livro conta a história de Safira, uma adolescente que está vivendo um momento muito turbulento na vida dela. Focando numa abordagem que envolve a adolescência e seus problemas, na história, a menina se coloca numa situação arriscada sem perceber que está correndo riscos. A metáfora, conforme explica a autora, é que ela se torna amiga de um tubarão branco, e na narrativa o tubarão branco representa os perigos que estão se aproximando dos jovens, como a questão da dependência química, as redes sociais que nem sempre são confiáveis. 

“Safira é uma das personagens mais intensas da minha jornada como escritora. A jovem canoísta de 15 anos me fez pensar sobre o quanto a adolescência é delicada e desafiadora. Pensei em uma menina com as características iniciais de uma anti-heroína, que amadurece ao longo do tempo a partir de experiências dolorosas. Há um processo de crescimento emocional que culmina em redenção”, destaca. 

Foto cedida

Sobre a história ela adianta que “Safira mora na Praia de Ponta Negra e ama passear com seu caiaque, remando todas as tardes em direção ao paraíso que fica por trás do Morro do Careca. É lá que conhecerá a criatura gigantesca que a levará às mais divertidas e perigosas aventuras. Não vou falar mais para não tirar do leitor o gostinho da descoberta”, diz. 

Um Tubarão de estimação

“O encontro inusitado com um tubarão-branco, metáfora para os perigos à espreita nessa fase da vida, vai trazer experiências impactantes à protagonista e ela as viverá em meio à dor causada por um trauma do passado”, destaca. A ideia de colocar um tubarão em cena, segundo a escritora, vem do fascínio pelo animal marinho. “Eles são enormes, poderosos, ferozes (para vocês terem uma ideia, são os animais que mais produzem testosterona em toda a natureza), portanto, indomáveis. Aparentemente Blue será “amigo” de Safira, mas a verdade é que servirá de alegoria aos desafios envolvidos no processo de amadurecimento”, explica.

Entre as várias questões, o Deep Blue vai tratar, também, do estilo de vida que a sociedade contemporânea dissemina, da relação dos jovens com os pais. “Nossos Jovens se angustiam por não conseguirem ser e realizar aquilo que as redes sociais alardeiam como sendo necessário para sua felicidade. Enredados nessa teia de consumo e propagação de conteúdos vazios, eles podem se perder. Como leitora precoce, acredito na literatura como fonte de apoio emocional e fonte de formação cultural, intelectual e moral. Além, é claro de diversão. Mas para que o livro se torne um hábito precisa haver condições favoráveis. Assim, Deep Blue deseja formar novos leitores oferecendo literatura atrativa e inspiradora”, ressalta.

O livro foi publicado através da Lei Aldir Blanc em setembro de 2021. O lançamento foi feito por meio de uma live do Clube de Leitura do Bolo de Chocolate, com a participação de adolescentes que leram o livro. Quem ficou curioso para conhecer a história de Safira, pode adquirir o livro pelo Instagram @deepbluebook, além disso, a obra vai estar à venda na Feira do Livro de Mossoró, edição 2022, no estande da Livraria Independência, da Artbook e da CJA.

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Maternidade compulsória e a pressão psicológica sobre mulheres que não desejam ter filhos

A ideia do “instinto materno” e da plenitude da maternidade ainda estão impregnadas na nossa sociedade. Mas, nem toda mulher deseja ser mãe e “tá tudo bem”, ou pelo menos deveria estar. O problema é que ser mulher e fugir da expectativa social é ter que lidar com julgamentos, e no caso da maternidade não é diferente. 

As mulheres que não querem ter filhos e até mesmo as que querem, mas ainda não planejaram estão cansadas de ouvir o “quem vai cuidar de você na velhice?”, “a mulher só conhece o amor verdadeiro depois que é mãe”, “você só vai se realizar como mulher depois que for mãe”. Isso, além de serem referenciadas como egoístas, frias, que não gostam de criança. As cobranças em torno das mulheres para que elas tenham filhos são muitas. No entanto, sobre gerar, criar, educar e até mesmo sobre a exaustão da maternidade, muitas vezes sem uma rede de apoio, pouco se fala.      

A pedagoga Mariana Brilhante, 44 anos, não tem dúvida de que a maternidade não faz parte dos seus planos. Ela afirma não sentir o famoso “instinto materno”. Não há uma razão específica que justifique essa decisão de não ter filhos, a não ser o fato de simplesmente não sentir vontade. 

Mariana Brilhante

“Não sou contra a maternidade e nem questiono mulheres que querem ter filhos, é um direito delas essa opção. Mas acho que quem não tem esse mesmo desejo precisa e deve ser respeitada. Acredito que maternidade foi imposta por uma sociedade que propaga a ideia de que a mulher só é mais mulher quando é mãe, e quem não tem filhos tem uma vida ruim, pois acreditam que a felicidade da mulher está ligada a um filho”, diz. 

Mariana conta que as críticas e opiniões, inclusive invasivas, chegam tanto de pessoas com quem ela não tem intimidade quanto de pessoas próximas. “Eu já ouvi de alguém que eu amo muito que eu sou infeliz e seca porque não tenho filho. Isso machuca muito, e não é verdade que somos menos sensíveis só por não querermos ser mãe. Eu já ouvi muitas mulheres que são mães dizerem que se pudessem voltar atrás nunca teriam tido filhos. Mas acredito que a sociedade trata dessa questão com muita complexidade e tabu”, frisa. 

As discussões sobre essa temática geram estresse para as mulheres, que não raro são expostas a situações constrangedoras. Ainda de acordo com Mariana, um comentário comum que sempre chega é que ela vai se arrepender de não ter tido filhos quando se deparar com a solidão na velhice. “Como se filhos fossem garantia de que não seremos sozinhas na finitude da vida. Se isso fosse regra, as casas de acolhimento para idosos não estariam cheias de pais órfãos de filhos”, destaca.

Ela desconstrói a ideia de que não querer ser mãe significa não gostar de criança. “Eu gosto muito de criança, amo minhas sobrinhas, meus alunos, fico com eles algumas horas, me apego, mas não sinto desejo de ser mãe e me angustia muito a forma como as crianças de hoje vivem. Eu não gostaria de ter tido filho na situação em que vivemos nessa última década. Tenho visto muitas crianças nascendo com transtornos, pais que precisam dedicar suas vidas exclusivamente aos filhos. Me conforta saber que não fiz essa escolha e quero ser respeitada por ela”, relata.

A assistente social Irys Cardoso Dantas, 34 anos, disse que ser mãe ainda não está nos planos, embora não descarte a ideia de um dia vir a ser. Porém, as cobranças e questionamentos chegaram desde que Irys pôs os pés “na casa dos 30”.  “Já tá na idade de ter filho” é o que ela mais escuta.

Os questionamentos não chegam acompanhados de uma avaliação sobre o contexto de vida da mulher, é como se ser mãe só dependesse da idade e do desejo. Comentários semelhantes aos que são direcionados à Mariana, Irys e a tantas mulheres que tomam a mesma decisão mostram o quanto a maternidade é vista quase como uma obrigação quando se é mulher. Inclusive, uma pressão social que não atinge os homens.  

Irys Cardoso Dantas

Irys defende que ser mãe não depende só de desejar ou cumprir com uma obrigação imposta, existem inúmeros fatores pelos quais ela ainda não pensa e nem deseja ter filhos. “Me perguntam muito quem vai cuidar de mim quando eu envelhecer. Ter filho não garante que teremos quem cuide da gente. Eu vejo no meu trabalho na área da assistência social muitos casos de abandono de idosos, mesmo os que têm vários filhos”, relata. 

A assistente social acrescenta que “a maternidade é uma responsabilidade muito grande e eu não me sinto preparada para criar e educar outra pessoa. Eu falo sempre: não sei cuidar de mim, imagina de uma criança. Mas muitas falam que a agente aprende com o tempo, que é um amor incondicional. Quero sentir um dia, mas não sem ter como dar subsídios a ela. Enfim, são muitos questionamentos que se passam na minha cabeça, não quero ter filho só por ter ou porque a sociedade diz que eu tenho que ter. Quero estar preparada, me sentir preparada para que eu possa ser a melhor mãe que eu puder”, diz.

 

Pesquisadora fala sobre a pressão em torno da maternidade 

A Revista Matracas conversou com a pesquisadora Ana Luíza de Figueiredo Souza (analuiza.dfigsouza) autora do livro “Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais”, sobre a maternidade compulsória. Ela explica de que maneira essa pressão foi estruturada na nossa sociedade e como ela atinge de uma forma ou de outra a todas as mulheres.

Ana Luiza Figueiredo Souza

Revista Matracas: O que significa maternidade compulsória? 

Ana Luiza de Figueiredo Souza: O mais importante é entender que a maternidade compulsória não se resume a um fator específico. Ela é um somatório de elementos (socioculturais, políticos, econômicos, médicos, religiosos, afetivos) que criam conjunturas que fazem com que a maternidade pareça — e, muitas vezes, se torne — a única opção possível para as mulheres. Essa compulsoriedade envolve desde macroestruturas (aquilo que se relaciona ao poder público, às políticas públicas, às esferas legislativa e jurídica, à maneira como nos organizamos enquanto sociedade civil, à cultura hegemônica, às representações midiáticas, ao imaginário coletivo) até microestruturas (aquilo que se relaciona à família, aos círculos sociais, aos relacionamentos afetivos, à construção subjetiva, ao planejamento de vida dos indivíduos), sendo que essas estruturas se perpassam. Por exemplo, um médico que, por crenças pessoais, se recusa a realizar a laqueadura de uma paciente ou a colocar um DIU em outra paciente. Uma família que, por estar inserida em um contexto maternalista, estimula a filha de oito anos a brincar de mamãe, desencorajando o interesse por algo além da maternidade.

 

Revista Matracas: Como ela afeta as mulheres na nossa sociedade. Não só as que não desejam ter filhos, mas também aquelas que apenas não consideram que seja o momento de ter, porém também sofrem a pressão social? 

Ana Luiza de Figueiredo Souza: A maternidade compulsória afeta a todas nós, de forma mais ou menos intensa. Tecnicamente, uma mulher que deseja filhos no futuro, mas acha que ainda não seja o momento para os ter, se mantém dentro da normatividade materna. Ela quer virar mãe, cumpre a expectativa normativa. Pode sentir uma cobrança mais interna, no sentido de querer algo que ainda não consegue realizar. Por sua vez, expressar a falta de desejo de se tornar mãe configura uma transgressão a essa normatividade. Apesar de a não maternidade ser mais aceita em determinados círculos sociais, não vem sem pressões ou agressões. Em geral, se entende que a falta de filhos precisa ser “compensada” de alguma maneira. Isso vale tanto para aquelas que não desejam ser mães quanto para as que ainda estão indecisas ou que esperam o melhor momento para isso. Já que elas não têm filhos, então “devem” estar disponíveis para atender às necessidades de pais/mães/responsáveis, ser maternais, saber lidar bem com crianças e adolescentes, entre outras demandas. O que não raramente se converte em fonte de novas insistências para que tenham filhos logo ou que mudem de ideia sobre permanecer sem eles.

 

Revista Matracas: Como a pressão social em torno dessa ideia de que a mulher tem que parir chega às mulheres lésbicas? 

Ana Luiza de Figueiredo Souza: Com mulheres lésbicas (e de outros grupos minoritários), se faz presente a necessidade de mostrar que podem ser mães tão valorosas quanto as mães preconizadas pelos modelos maternos hegemônicos. A imagem familiar tradicional — embora distinta do que sempre existiu ao longo da nossa história enquanto país —, consiste em um pai, uma mãe e seus filhos biológicos. Fugir disso, ainda que não seja incomum, gera preconceitos, violências, dificuldades. Percebo três tentativas vindas de mulheres que pertencem a grupos divergentes da norma, entre elas, as lésbicas. Uma é a de se aproximar, conscientemente ou não, o máximo possível daquilo que foi estabelecido como “ideal”, de comportamentos normativos. Outra é a de se distanciar desses modelos e seguir apenas aquilo que faz sentido para si mesmas (suas concepções do que seria uma mulher, uma mãe, uma família, criação dos filhos etc.), já que tais modelos não as acolhem. A terceira é a de negociar entre a normatividade materna e as preferências/possibilidades pessoais. Esta última acaba sendo a via percorrida por número expressivo de mulheres, sejam lésbicas ou não. Fato é que uma mulher lésbica pode ser mãe biológica (muitas, inclusive, investem altos valores para isso), ter os filhos por meio do parto, adotar e/ou exercer a maternidade solo. Uma experiência não impede a outra.

 

Revista Matracas: Como desconstruir essa ideia de que a maternidade é o meio de alcançar o ápice da vida das mulheres? Podemos relacionar essa cultura ao sistema patriarcal, capitalista?   

Ana Luiza de Figueiredo Souza: O capitalismo nasceu no patriarcado, mais especificamente o patriarcado branco. Portanto, é um sistema intrinsecamente misógino, racista, sexista. Além de predatório no que se refere ao impacto socioambiental que ocasiona. Verdade seja dita, o número de pessoas que se beneficiam da soma dessas mazelas é muito restrito. Se queremos combater a ideologia maternalista, a maternidade compulsória, temos que entender que esse empenho também precisa enfrentar as estruturas que as sustentam. Entre elas, a misoginia, o racismo, o sexismo e esse modelo socioeconômico que, além de utilizar e reforçar preconceitos e violências há muito enraizados, está levando o planeta ao colapso. Acredito que a luta perde muito quando a restringimos a uma só esfera de enfrentamento. Ou contra a maternidade compulsória. Ou contra a misoginia. Ou contra o racismo. Ou contra a degradação ambiental. Ou pelos direitos das pessoas com filhos ou pelos direitos das pessoas sem filhos. Não se trata de “ou”, mas de “e”. São demandas que caminham juntas. Se contempladas, construiriam uma coletividade mais justa, para todos os seres vivos. 

 

Revista Matracas: Sobre a romantização do que é ser mãe.

Ana Luiza de Figueiredo Souza: Nas nossas culturas e sociedades hegemônicas, que são patriarcais, ser mãe é colocado como aquilo que todas as mulheres deveriam ser, algo que nasceram para se tornar. Mesmo em culturas e sociedades fora desses modelos hegemônicos, a figura da mãe é valorizada, até reverenciada. A mãe é mais importante. É mais forte. É mais realizada. É digna de ser exemplo. Tem mais companhia. É mais sábia. Existe a crença generalizada de que ter filhos marca o amadurecimento da mulher, o que a transforma em uma adulta “de verdade”. Então muito da romantização do que é ser mãe vem da reprovação da vida enquanto mulher sem filhos, como se fosse menor. No entanto, essa romantização da maternidade guarda armadilhas. Em contextos patriarcais e misóginos, o valor feminino se dá na medida em que a mulher se torna útil a terceiros. Desempenha função servil. Não à toa aquelas que não viram ou não querem virar mães são o tempo inteiro interpeladas para que maternem. Então o que é valorizado é essa função servil, mais do que a mulher-mãe em si. Aí mora o perigo. Primeiro porque, mesmo sem filhos, se torna difícil escapar dessa lógica maternalista. Ela também engloba as não mães, existe a expectativa de que estejam à disposição de pais/mães e seus filhos. Segundo porque, se a maternidade é algo que todas as mulheres nasceram para desempenhar, “não precisam” de assistência do poder público nem da sociedade civil na maternagem, pois “já sabem o que fazer”. Se não sabem, “deveriam saber”, isso é um “problema só delas”. A maternidade acaba sendo tratada majoritariamente no campo individual, em vez de enquanto questão coletiva, que necessita de amparo do Estado. Também é tratada como uma espécie de bênção, pela qual as mães deveriam ser eternamente gratas, suprimindo críticas, reclamações, dores. E muito disso vem da romantização que a rodeia.

 

Sobre Ana Luiza 

Ana Luiza de Figueiredo Souza é mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM UFF), sendo graduada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela UFRJ. Gestora de Produção de Conteúdo e Editoração do GP Tecnologias e Culturas Digitais da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Coordenadora da equipe de revisão da revista Contracampo. Integrante do grupo de pesquisa MiDICom. Consultora acadêmica e literária. Autora do livro “Ser mãe é f*d@!”: mulheres, (não) maternidade e mídias sociais. O livro apresenta e expande os principais resultados de sua pesquisa de mestrado, vencedora do Prêmio Compós. Seus trabalhos e reflexões podem ser acessados no site www.analuizadefigueiredosouza.com.br , bem como em suas contas nas mídias sociais.  

 

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Coordenadoria Estadual da Mulher estuda implantação de uma Sala Lilás em Mossoró

Mossoró deverá contar com mais um equipamento para atender as mulheres em situação de violência. A instalação da Sala Lilás, espaço de acolhimento a vítima de violência doméstica, já vem sendo discutida e a perspectiva é de que seja implantada em junho.  

Segundo informações do site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), a coordenadora da CE-Mulher do TJRN, a juíza Fátima Soares, já esteve em Mossoró para falar sobre o assunto. O encontro aconteceu em abril com o titular do Juizado da Violência Doméstica de Mossoró, o juiz Renato Magalhães. 

Em matéria publicada no site consta que a inauguração do espaço deverá integrar a programação de celebração dos 130 Anos do TJ potiguar. “É importante que a população saiba que o nosso Tribunal está atento à questão de proporcionar um atendimento digno às vítimas da violência doméstica e familiar”, aponta a magistrada.

Na conversa com o colega magistrado, também entrou em pauta a instalação e funcionamento da nova equipe multidisciplinar da Coordenadoria da Mulher, na região Oeste do Rio Grande do Norte, cujas ações são coordenadas pelo magistrado Renato Magalhães.

Atualmente, o Poder Judiciário potiguar conta com duas Salas Lilás, uma no Anexo da Ribeira (antigo Grande Hotel) e a outra, no Centro Judiciário Varella Barca, na Zona Norte de Natal. “Estamos interiorizando nosso projeto, por isso a próxima será aberta em Mossoró”, salienta Fátima Soares. “Essa sala será um instrumento de enorme utilidade para essa parte mais sensível da população (vítimas de violência doméstica e familiar), que precisará mais do que nunca de uma recepção profissional e atenciosa”, ressalta.

As “Salas Lilás” são idealizadas para oferecer conforto e segurança as mulheres. “Trata-se de um local equipado para realização de exames periciais da equipe multidisciplinar composta por psicólogas, assistentes sociais, pedagogas e policiais femininas da Patrulha Maria da Penha”, pontua. 

As salas atuam com a parceira da Patrulha Maria da Penha, tanto na esfera estadual como na municipal.

 

Fonte (www.tjrn.jus.br)

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8 de Março: Dia de resistência e luta pela vida das mulheres

Com o mote “Pela Vida das Mulheres Bolsonaro Nunca Mais! Por um Brasil sem Machismo, Racismo e Fome”, mulheres tomam as ruas neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

Em Mossoró várias ações já estão acontecendo desde o início da manhã de hoje. Cada organização e movimentos feministas vem registrando sua presença na luta, com atividades em vários pontos da cidade.

No início da manhã a Coletiva Motim Feminista realizou a Alvorada Feminista, na praça da catedral. A ação contou com um abordagem de populares nas ruas, com entrevistas para o programa simbólico “Rádio TV Feminista”.

Ainda dentro da programação do 8M, a Marcha Mundial das Mulheres em Mossoró realiza uma ação política em frente ao Centro Feminista 8 de Março, desde as 8h, com feira de economia feminista e solidária, dando visibilidade ao trabalho das mulheres, baseado nos princípios da agroecologia, da economia solidária.

Além da feira, o evento contou com o debate: Feminismo popular e as lutas de 2022 com a deputada estadual Isolda Dantas; Michela Calaça do Movimento Mulheres Camponesas; Hilberlandia Fernandes da Comissão Pastoral da Terra e Rejane Medeiros do Centro Feminista 8 de Março.

A tarde acontece o ato unificado das mulheres de Mossoró que será às 16h30, na Praça do Pax. Antes de chegar a praça haverá a concentração em dois pontos específicos. São dois blocos, um sai da praça do shopping Boulevar e o outro da praça da Igreja do Perpétuo Socorro, nas proximidades do Centro Feminista 8 de Março.

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Oito mulheres foram vítimas de feminicídios em pouco mais de dois meses no RN

Ingrid Carolinny Soares dos Santos, de 28 anos, foi encontrada morta na noite da última quinta-feira (3) dentro do “açude do padre”, na cidade de Campo Grande. O principal suspeito do crime é Willame Xavier do Nascimento, 36 anos, com quem Ingrid foi vista bebendo na última quarta-feira (2). (fonte: mossorohoje.com.br) 

Na mesma noite da última quinta-feira (3) um homem matou a ex-mulher com um tiro na cabeça no conjunto Parque dos Coqueiros, na Zona Norte de Natal, e depois cometeu suicídio. Manuela Josino Miranda, de 32 anos, foi morta na frente das duas filhas e da mãe. (fonte: g1.com.br).

Em 22 de fevereiro de 2022, Kalina de Azevedo Marques, 43 anos, foi morta a tiros pelo marido, na grande Natal. Maurício Rocha de Farias Neto, 39 anos, não aceitava a separação. Após matar a esposa, ele cometeu suicídio. (fonte: g1.com.br).   

Ingrid, Manuela e Kalina estão entre os oito casos de feminicídio já registrados entre 1° de janeiro e 4 de março de 2022, segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed/RN).  São mulheres que foram mortas por sua condição de ser mulher, pelo machismo.  

De acordo com a professora Suamy Soares, do curso de Serviço Social da Uern, e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a Mulher (NEM/Uern), os dados são um indício de que a violência contra mulher está se agravando e que a condição das mulheres no RN é de extrema vulnerabilidade. “A gente sabe que a violência contra mulher é um fenômeno social, histórico, cultural, que está arraigado na formação social do Brasil e que impacta a vida das mulheres, seja na esfera do trabalho, em casa, na rua. Mas elas têm acontecido com bastante força nesse período pandêmico”, ressalta.     

Para a professora, o quadro demonstra a necessidade de políticas de prevenção a violência contra mulher e o feminicídio, considerando que apenas a Lei Maria da Penha como instrumento de punição não vem sendo eficaz no enfrentamento à violência contra mulher. Uma realidade que se constata através das próprias estatísticas. Ela acrescenta que as violências que ocorrem na esfera doméstica têm assumido dados alarmantes. O Brasil segue sendo o quinto país que mais mata mulheres no mundo, e o RN, também, o quinto Estado do Brasil mais violento para mulheres. 

“Tivemos oito casos de feminicídio em três meses e precisamos destacar que essas violências que são praticadas contra mulheres se agravam quando a gente acrescenta recorte de classe, de raça. Então, é importante destacar que todas as mulheres sofrem violências, mas que as mulheres negras e pobres sofrem mais abatimentos. Os números têm mostrado que, apesar de existir lei para punição dos agressores, as mulheres seguem sendo violentadas e isso mostra a necessidade de políticas eficazes de prevenção a violência e educação e gênero. É preciso que a gente fortaleça a discussão de gênero. Estamos num momento em que o país passa por cortes orçamentários no campo das políticas públicas destinadas às mulheres, um rebaixamento do debate dos direitos humanos e da defesa das mulheres, e tudo isso repercute no aumento das violações. Nosso cenário atual é pavoroso e muito difícil, e a conjuntura atual só fortalece esse cenário de dificuldades e vulnerabilidades para as mulheres”, destaca.      

O Rio Grande do Norte já é considerado um dos Estados mais violentos para as mulheres. Em 2021 o RN registrou elevadas estatísticas de violências praticadas contra mulheres. Dados referentes ao somatório dos registros da Lei Maria da Penha para os crimes de ameaça, calúnia, descumprimentos de medidas protetivas de urgência, injúria, lesão corporal, vias de fato, estupro, estupro de vulnerável e violência doméstica no ambiente familiar contra a mulher apontaram um aumento de 51,1%, num comparativo entre 2020 e 2021, segundo dados da Secretaria de Comunicação Social da Polícia Civil (Secoms). Incluídos nesse número os casos de violência doméstica praticados contra mulher não só pelo parceiro, mas, também, pelos familiares. Conforme os registros de janeiro a setembro de 2020, foram 2.945 casos de violência doméstica. Nesse mesmo período de 2021 (janeiro a setembro), foram 4.421.

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Talento, criatividade e empreendedorismo das crocheteiras messienses

É de uma agulha, um novelo de lã, criatividade e, principalmente, da paciente arte de alinhavar fios, que nascem as produções das crocheteiras de Messias Targino. Roupas, produtos de enxoval, chapéus, moda praia e mais uma variação de produtos já ultrapassam o mercado messiense e hoje chegam às lojas de renome nacional.  

O crochê sempre fez parte da história da cidade, porém, poucas mulheres se dedicavam à arte. Atualmente um grupo de mulheres vem se destacando no segmento com a produção de peças modernas e que seguem as tendências do mercado. A cidade hoje conta com mais de trinta artesãs, de todas as idades. As mais novas, influenciadas pelas veteranas que têm se engajado no trabalho de ensinar e orientar a quem é iniciante. 

Atualmente o crochê não é mais visto com a percepção apenas de um trabalho realizado pela mulher “prendada” que “já pode casar”, mas como uma expressão artística, empoderamento, autonomia financeira. Afinal parte das mulheres tem essa arte como fonte principal de renda, outras, como complemento que faz a diferença no orçamento no final do mês.

 

 

A forma tradicional de produzir ainda existe entre parte delas. Algumas ainda ficam nas calçadas, geralmente em grupos, em suas cadeiras de balanço, fazendo sua própria jornada de trabalho. Maria das Dores da Silva, 74 anos, é das mais antigas. Profissional que se destaca no bordado, corte e costura e no crochê, dona Maria é considerada uma verdadeira artista e sempre foi muito solicitada na cidade pela dedicação nas peças que produz. “A minha vida toda me dediquei a esse trabalho. Hoje, sigo fazendo minhas peças e orgulhosa do meu trabalho”, frisa.    

Luciete Jales tem sua história profissional diretamente ligada ao crochê. Desde os 12 anos que sua fonte de renda vem do artesanato. Habilidade registrada e reconhecida no biscuit, boneca de pano, pedrarias e, com um foco maior nos produtos de crochê. O mais importante, segue repassando o conhecimento e garantindo novos talentos. “Ter esse trabalho reconhecido e ver nossos produtos sendo valorizados é muito estimulante para gente continuar produzindo e reproduzindo novos talentos. É um prazer poder transmitir o que sei para as novas gerações, dessa forma, garantindo o seguimento dessa arte”, disse.

Além de ser fonte de renda, o crochê também movimenta a economia local, considerando que muitos dos produtos são vendidos dentro da cidade. Os preços variam. Existem peças de quatro reais e existem peças que chegam a trezentos reais. A venda é feita individual, ou seja, por cada crocheteira, e através de negociação entre lojas e a Secretaria de Cultura, que é quem dirige o projeto Messias Targino Terra do Crochê. 

A contrapartida do Município é feita por meio de um convênio com a Moda Depedro, uma marca que vem proporcionando voos a empreendimentos do segmento da moda e quem abriu as portas para o projeto. “Nesse convênio, a Prefeitura paga um determinado valor à marca e ela compra a produção das crocheteiras de Messias”, destaca George Almeida, coordenador do projeto. Inclusive, através dessa parceria com a Depedro, peça produzida por crocheteiras messienses já foi destaque na revista Vogue Brasil. 

George ressalta que em breve será instalada a loja das crocheteiras, um espaço onde cada uma delas terá seu ponto de venda. Além da loja, a Secretaria de Cultura planeja a formação de turmas para realização para cursos que serão destinados a quem tiver interesse em aprender a crochetar, tendo em vista a procura de mulheres interessadas em entrar no segmento. 

Mizaele Jales afirma que é do crochê que vem a principal ajuda no orçamento. A alta demanda pelas peças tem estimulado as mulheres a produzirem. “É uma fonte que eu posso contar. Além da parte financeira, esse projeto trouxe a oportunidade de novos aprendizados e novos projetos para minha vida. E quanto mais a gente se dedicar mais a gente vai ter retorno, principalmente financeiro. Posso dizer que tem sido muito importante o projeto e a intermediação da coordenação nas vendas, para que nossos produtos sejam valorizados e reconhecidos em outros lugares. Hoje nós temos uma boa demanda”, destacou Mizaela.  

Na produção das peças algumas delas recorrem à internet para se atualizar das tendências de cores e modelos, mas o que importa mesmo é entregar o produto como o cliente quer. “O crochê me proporcionou a oportunidade de criar peças que nunca imaginei conseguir criar. Estimula a minha criatividade. Cada peça concluída, logo me vem a vontade de começar a produzir outra. Além disso, tem sido uma fonte que complementa o orçamento, conquistando minha independência financeira e autonomia, ajudando a realizar meus projetos. Sou apaixonada pela arte de crochetar e vejo a possibilidade de empreender através das linhas e agulhas”, disse a pedagoga e também crocheteira Gigriola Lima.

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“Bolsonaro Nunca Mais” será uma das pautas centrais das ações do 8 de março

Movimentos e organizações feministas, locais e nacionais, já começaram a articular as ações que serão desenvolvidas no mês de março, dentro da programação alusiva ao 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Os encontros, que já vêm acontecendo para discutir as atividades que serão executadas ao longo do mês, são uma continuação das ações que encerraram o calendário de luta de 2021. As pautas centrais já foram definidas e o “Fora Bolsonaro”, juntamente com tudo que decorre da política genocida de seu governo, continua nas principais pautas do manifesto que foi elaborado pelos grupos.

De acordo com Michela Calaça, do Movimento de Mulheres Camponesas, nacionalmente as organizações aprovaram como mote “Pela Vida das Mulheres – Bolsonaro Nunca Mais! Por um Brasil sem Machismo, Racismo e Fome”.

“Essa é alinha do nosso diálogo. Temos um manifesto que foi feito no dia 4 dezembro, em que a gente explana tudo que entendemos que a política genocida de Bolsonaro ataca na vida das mulheres. Seja a partir da degradação ambiental, que afeta as mulheres indígenas ou quilombolas em especial, mas atinge o planeta como um todo. A gente tá partindo desse acúmulo político coletivo. A gente parte do que a gente já vem construído unitariamente nos 8 de março há mais de cinco anos, mas de forma mais orgânica, a partir dessa articulação do Bolsonaro Nunca Mais”, disse.

As reuniões já estão acontecendo com várias organizações nacionais e locais, entre elas o Movimento de Mulheres Camponesas, várias organizações da via campesina, Marcha Mundial de Mulheres, Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Liga Brasileira de Lésbicas, com as secretárias de mulheres dos vários partidos de esquerda, a União Brasileira de Mulheres e demais organizações de nível local e nacional como o Núcleo de Estudos da Uern (NEM), Associação dos Professores da Ufersa (Adufersa), o Andes, entre outros.

Segundo Michela, a ideia de construir um 8 de março de forma unitária já vem sendo praticada há alguns anos, sendo que no ano passado foi possível uma maior organicidade desse processo com a realização do #4D, o ato “Bolsonaro Nunca Mais” organizado pelas mulheres em todo país no dia 4/12. Ato que encerrou o calendário de luta de 2021 e já apontando para o início do calendário desse ano.

“A articulação continua. Já tivemos a terceira reunião nacional. A ideia é construir um mote e uma identidade comum, mas tendo os estados total liberdade de ampliar esse mote e fazer uma construção que tenha o máximo de diálogo com as realidades estaduais. Dando unidade à luta das mulheres no 8 de março”, explicou.

Em nível local, duas reuniões já foram feitas. Todas as discussões seguem essa linha do Fora Bolsonaro, ou seja, priorizando o mote Bolsonaro Nunca Mais.

“O oito de março está priorizando a pauta do Fora Bolsonaro porque queremos que ele caia. Sua política de morte faz muito mal à vida das mulheres, principalmente mulheres negras”, destaca.

Michela chama atenção para as consequências de um governo genocida que recaem com mais força na vida das mulheres e das mulheres negras, que são as que mais têm que lidar com a carestia, com a fome, quem mais perdeu emprego, quem tem sofrido mais violência com a ampliação do conservadorismo.

“É sobre o corpo de quem recai as violências do conservadorismo e tudo que o governo genocida propaga. O nosso mote vai ser nesse diálogo, pela vida das mulheres, denunciar o machismo, racismo e a carestia no preço dos alimentos”, frisa.

As ações são construídas de forma unitária, porem cada estado e cada localidade tem autonomia para construir sua programação de acordo com sua realidade. Michela afirma que em Mossoró já foram realizadas reuniões com organizações para entender como cada uma vem pensando ou sobre o que já tem definido individualmente. Cada uma tem jornada e pensa atividade diferente.

“As Mulheres Camponesas estão com uma jornada que vai de 7 a 12 de março e estamos também nessa linha da denúncia, em defesa da vida, fora genocida, Bolsonaro nunca mais. A gente entende que ele ataca todas as formas de vida, seja no negacionismo da pandemia, seja com a degradação do meio ambiente e ampliação do conservadorismo que tem impactado a vida das mulheres”, diz.

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Destaque Saúde e sexualidade Sem categoria

Sexualidade feminina: os tabus que atrapalham o prazer

A sexualidade feminina é baseada em preconceito, tabus, crenças e muita censura. Numa sociedade machista/patriarcal as mulheres aprendem desde cedo que sua função é proporcionar prazer, procriar, que precisam ser comportadas, não podem falar abertamente sobre sexo, sobre seu próprio prazer e seus desejos. Nesse sistema que ainda se sustenta, as mulheres foram e, apesar de alguns avanços que decorrem das lutas em busca da igualdade de gênero, continuam sendo educadas dentro de uma estrutura conservadora, numa sociedade que julga mulheres que falam abertamente sobre sexo.

O fato é que toda essa estrutura atinge diretamente a capacidade da mulher sentir e viver o prazer sexual, livre de culpas, medo, insegurança. Dessa forma, acarretando uma série de outros problemas que chegam a interferir na sua qualidade de vida. Algumas mulheres não tem receio de procurar ajuda de um profissional quando sentem que existe algo de errado com sua vida sexual. Porém, existem as que não conseguem e acabam convivendo com alguns transtornos, as vezes até sem ter consciência de que se trata de um problema de saúde.

Quando falamos dos problemas que afetam a vida sexual das mulheres, não há como não evidenciar a questão das disfunções sexuais que muitas vezes são frutos desse tipo de educação pela qual passam as mulheres. A dispareunia (dor durante o ato sexual), ausência de desejo, falta de lubrificação e anorgasmia (ausência do orgasmo) são algumas das reclamações que chegam ao consultório da fisioterapeuta pélvica, Dayse Bezerra.

“Podemos dizer que as disfunções sexuais femininas são condições que afetam a qualidade da vida sexual da mulher, ou seja, condições que afetam o ciclo da resposta sexual. A grande questão aqui é que a maioria das mulheres não compreende essas queixas como um problema de saúde e acredita ser normal conviver com elas. Isso, por sua vez, só agrava o problema, pois elas não procuram tratamento e passam grande parte da vida insatisfeitas sexualmente, podendo desencadear transtornos físicos e até psicológicos”, explica.

Para Dayse, a sexualidade feminina ainda é um tabu e parte das disfunções tem origem na falta de autoconhecimento. “A maioria das mulheres não conhece o assoalho pélvico, tão pouco sabem a sua função e importância e é impossível falar de disfunções sexuais sem falar desse grupo muscular e educação sexual repressora. Nós crescemos ouvindo: ‘tira a mão daí menina!’ ‘Isso é feio!’. Enquanto os meninos são estimulados a adorarem o pênis como um troféu”, diz.

Dayse ressalta que entre as possíveis causas que contribuem para as disfunções sexuais estão: a educação sexual religiosa quando é repressora. “Quem nunca ouviu que masturbação é pecado?”, questiona. A pressão sexual, ou seja, a mulher não sente vontade de transar, mas se vê obrigada a ter relação para agradar o companheiro; condições ginecológicas (quadros inflamatórios e infecciosos); abuso físico (abuso sexual, estupro, toque não consentido, por exemplo) e psicólogo. “Vale frisar aqui a importância de uma avaliação minuciosa do caso de cada paciente, pois não são apenas causas psicológicas que levam as mulheres a desenvolverem disfunções. Tanto existem casos que decorrem da parte psicológica quanto da parte biológica”, explica.

O ponto de partida para resolver o problema, segundo a fisioterapeuta, é a informação aberta e de qualidade. Quanto mais falarmos sobre o assunto, mais mulheres se sentirão acolhidas e buscarão por ajuda. Ela considera indispensável incentivar a mulher a conhecer o próprio corpo.

“Não podemos identificar uma anormalidade se não entendemos o que é normal. Na minha consulta, uma das primeiras perguntas que faço é se a mulher tem costume de olhar a sua vulva no espelho, e muitas relatam que não, e isso independe da idade. Então a minha primeira sessão é toda voltada para a educação em saúde, durante a qual apresento todos os músculos do assoalho pélvico, suas funções, importância sexual, de continência urinária e fecal, e do outro lado da mesa encontro rostinhos maravilhados entendendo o seu corpo muitas vezes pela primeira vez. É incrível vê-las despertando o amor próprio e acreditem, isso interfere e muito no sucesso do tratamento”, revela.

A necessidade das mulheres serem assistidas por profissionais qualificados é mais uma observação importante. De acordo com Dayse não é raro relatos de mulheres que procuraram ajuda e ouviram algo como “você precisa relaxar mais”.

“O tratamento das disfunções sexuais muitas vezes conta com uma equipe multiprofissional de fisioterapeuta pélvico, ginecologista, psicólogo… e cada um exerce um papel de extrema importância no diagnóstico e condução do tratamento. Então, mulher, leia, pesquise em fontes seguras, converse com outras mulheres e faça uma escolha segura quanto aos profissionais que irão te assistir”, orienta.

As disfunções sexuais apresentam sinais e um deles é a dor na relação, podendo ser relatada como uma dor mais superficial ou profunda, conforme explica. “Vou falar uma frase para vocês que deve se tornar um mantra: dor na relação nunca será normal, nunca! Não importa se a dor ‘é só no comecinho’ como eu costumo ouvir no consultório. Nós fazemos sexo para ter prazer, se ele te gera dor, ardência, desconforto, temos aí um sinal de alerta. Procure ajuda!”, explica.

São muitas as dúvidas que norteiam as mulheres sobre seus corpos e seu prazer. Em sua página @simplificando_a_pelve, espaço através do qual Dayse amplia as discussões para além do espaço físico da sua clínica, abordando vários temas relacionados à fisioterapia pélvica e obstétrica, assim como a saúde da mulher em vários aspectos, ela consegue chegar a muitos questionamentos sobre esse universo que é a sexualidade feminina.

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Destaque Gerais

Bordado como principal fonte de renda das mulheres em Timbaúba dos Batistas

O Seridó é uma região conhecida pelos bordados e é na cidade de Timbaúba dos Batistas que moram as principais bordadeiras do Rio Grande do Norte, as mulheres que são responsáveis por transformar o bordado em verdadeiras obras de arte.  

A arte de bordar atravessa gerações. A maioria das bordadeiras aprenderam com seus familiares, muitas delas ainda na adolescência. Uma prova disso é a história da bordadeira e, atualmente coordenadora do artesanato no Município de Timbaúba, Jailma Araújo Gomes. Desde os 12 anos que ela empreende na arte de bordar, trabalho que já aprendeu com sua mãe. Hoje, com 41 anos, esse trabalho é a sua principal fonte de renda, mesmo tendo tentado outros tipos de trabalho ela sempre concentrou seu talento no bordado. “Já tivemos até 3 gerações de bordadeiras na mesma família, mas atualmente só temos duas gerações, mãe e filha em boa parte das residências”, confirma. 

Segundo Jailma 80% da economia vem do bordado, e nos últimos cadastros foram registrados aproximadamente 800 bordadeiras mulheres, desse número, a maioria é de mulheres que são chefes de família, um fato que relaciona o trabalho artesanal à autonomia financeira das mulheres. 

O artesanato inclui diferentes tipos de trabalho. O bordado, especificamente, concentra uma sequência de mão de obra até o produto ficar pronto para ser comercializado. “Na cadeia produtiva do bordado temos o riscador, a lavadeira e a passadeira, que inclusive estamos com um número bem reduzido. Riscadores temos apenas 5, lavadeira 3 e passadeiras 6, sendo 3 do sexo masculino”, frisa Jailma. 

A comercialização dos produtos é feita por vários canais como as feiras de artesanato e pela internet. Os produtos variam entre cama, mesa, banho, enxoval para recém nascidos, roupas, redes entre outros. As entregas são feitas em todo o Brasil, mas é no município, na “Casa das Bordadeiras Iracema Soares”, que concentra a maior parte das ações, inclusive a comercialização. Para os que desejam encomendar via internet, no instagram @casadasbordadeiras tem os contatos pelos quais poderão ser feitas as encomendas. 

Foto: Jailma Araújo

“A Casa dá suporte desde oficinas e capacitações até as vendas dos bordados. Aqui temos uma lojinha onde são comercializados os bordados e recebemos também encomendas. Além da lojinha participamos de feiras de artesanato municipais e estaduais”, destacou. As principais feiras que as bordadeiras participam e que também são pontos importantes de comercialização são: FIART, FENEARTE, FAMUSE e a feira de Belo Horizonte. 

Jailma acrescenta que o apoio do Governo do RN às profissionais vêm principalmente na realização de feiras de comercialização através do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), além disso, existem novos projetos que ainda estão em fase de planejamento. 

Assim como os outros segmentos, o artesanato também sofreu as consequências da pandemia. A escassez de matéria-prima, durante o período em que as fábricas paralisaram sua produção, e o aumento no custo da matéria-prima, foram os principais problemas enfrentados pelas profissionais, que somaram com a queda nas vendas dos produtos. Apesar dos desafios, Jailma acredita que a partir dos projetos que estão surgindo é possível alimentar boas perspectivas para os próximos anos.