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Por soberania popular e democracia. Mulheres vivas do Brasil à Palestina: Com protagonismo das mulheres, agroecologia, democracia e políticas públicas combatemos a fome e a violência

Texto de Michela Calaça e Noeli Taborda, extraído brasilpopular.org

Historicamente as mulheres são responsabilizadas pelo gerenciamento da comida, na abundância, mas em especial quando ela falta. Diante dessa realidade e na atual conjuntura mundial de ampliação dos conflitos agrários e ambientais o tema da fome a partir de uma perspectiva feminista da soberania alimentar é fundamental para pensar o enfrentamento da fome e a construção de vida digna.

Nos últimos anos a jornada de luta e resistência das mulheres trabalhadoras do campo, floresta, águas e da cidade, em torno do 8 de março é marcada por ações unitárias na luta por uma vida sem violência, por políticas públicas de direitos reprodutivos, de defesa dos territórios, de saúde, pela defesa da democracia, entre outras pautas que tem se colocado como direitos em risco na vida das mulheres. Entre tantas lutas, o combate à fome com o acesso ao alimento saudável e diversificado a partir da soberania alimentar tem se colocado como ferramenta concreta de unidade entre as mulheres da classe trabalhadora.

As mulheres camponesas no mundo inteiro têm construído inúmeras experiências de produção, entre elas a recuperação, produção e melhoramento de sementes crioulas, plantas medicinais, árvores frutíferas e nativas, a criação diversificada de animais, a recuperação e preservação de nascentes de águas, o artesanato, entre outros, como forma de construção concreta a soberania alimentar em seus países. A solução da fome passa pelas mãos das mulheres e precisa ser construída com o protagonismo e o fortalecimento da sua autonomia.

No Brasil durante os anos nefastos da extrema direita no governo, as ações de solidariedade a partir da produção camponesa, a entrega de alimentos nas periferias urbanas, seja com cozinhas solidárias ou ações de entrega de cestas com alimentos e produtos de limpeza, permitiu que mulheres contribuíssem com a formulação de saídas para fome a partir de ações concretas. Assim, durante a campanha do presidente Lula as mulheres a partir da articulação no comitê nacional de Mulheres e também na proposta do campo unitário trouxeram propostas concretas de ações para construção da soberania alimentar e enfrentamento às mudanças climáticas.

Agora no governo do presidente Lula, algumas dessas propostas começam a se estruturar como políticas públicas, são quintais produtivos como ação de produção de alimentos e valorização dos saberes das mulheres. As cozinhas solidárias viraram lei dentro de uma política de abastecimento alimentar fundamentada na produção de alimentos saudáveis e na produção da diversidade que compõe a agricultura familiar camponesa no Brasil, entre outras ações que alimentam a nossa esperança de construção popular da soberania alimentar.

Outra preocupação central na vida das mulheres camponesas, mas que impactam todo o mundo são as mudanças climáticas, que ocorrem não apenas pela utilização de combustíveis fósseis, mas por toda uma estrutura de modelo de produção que, em nome do lucro, coloca em risco o planeta. As mudanças climáticas colocam em risco a produção de alimentos no mundo, a resposta para elas passa pela agroecologia, pela luta antirracista e pelo feminismo. As mulheres em luta contra a fome, lembram que são os povos do campo, floresta e água que tem soluções concretas para o enfrentamento das mudanças climáticas. Portanto, a mudança na matriz energética, as mudanças no modelo de produção agropecuária precisam ser construídas a partir do diálogo com as mulheres camponesas, suas vidas têm sido impactadas negativamente por escolhas que não as ouvem.

Os povos indígenas, quilombolas, pescadoras/res artesanais, extrativistas, os demais povos e comunidades tradicionais e a agricultura camponesa familiar agroecológica tem mostrado que é possível produzir alimentos saudáveis com respeito a natureza e as mulheres pertencentes a esses grupos têm sido protagonistas nessa construção.

A fome na cidade é mais um dos reflexos de um racismo estrutural que se manifesta majoritariamente pela falta de condições de vida mínimas ao povo das periferias. Entendemos ser fundamental que a política pública busque enfrentar o racismo estrutural fortalecendo os laços comunitários que as mulheres demonstraram no EleNão, na pandemia e nas lutas cotidianas que sabem como fazer.

Nesse 8 de março queremos dizer que o enfrentamento a fome de forma estrutural passa pelas saídas construídas pelas mulheres em sua diversidade e a participação delas nos rumos do país precisa ser construída nas ruas, na construção das políticas públicas a partir das ruas e dos espaços de diálogo social implementados pelo governo e com participação política nas eleições. Eleger mulheres de luta, que tem o fim da fome, a democracia, a soberania popular como plataforma de vida, sejam elas do campo, da floresta, das águas ou das cidades contribui para que as mulheres possam viver melhor e na medida que a vida das mulheres melhora, o mundo melhora.

No 8 de março – Dia internacional de luta das trabalhadoras é a hora de marcarmos nas ruas o projeto de país que queremos e nós mulheres temos propostas e ações concretas nesse sentido.

Michela Calaça – Direção Nacional do Movimento Brasil Popular e compõe o setor de mulheres; Militante Movimento de Mulheres Camponesas e do PT.

Noeli Taborda – Direção Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas e Coordenação Nacional do Movimento Brasil Popular, compõe o setor de Mulheres do MBP.

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Destaque Sem categoria Violência contra mulher

Agosto Lilás e as mobilizações pelo fim da violência contra mulher

O mês de agosto será todo voltado para ações de conscientização pelo fim da violência contra mulher. Em todo o país uma série de atividades vem sendo realizadas em torno da campanha “Agosto Lilás”, que acontece exatamente neste mês por ser o mês de aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada no dia 7 de agosto de 2006.

Os números de feminicídios estão em alta. Mulheres são mortas todos os dias e o “parem de nos matar” continua sendo um grito necessário. Estatísticas apontam o Brasil com elevadas taxas de violências cotidianas praticadas contra mulheres, situação que o coloca entre os países que mais mata mulheres. Um dado preocupante e que torna urgente a ampliação do debate e a importância de todos no enfrentamento.

Inserido nesse cenário preocupante está o Rio Grande do Norte. O Estado também conta com elevados índices de violência contra mulher. De acordo com dados plataforma Proteger – contador de medidas protetivas disponibilizado no site do Tribunal de Justiça do RN – nos últimos 12 meses, a Justiça Estadual concedeu 2.862 medidas protetivas a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Nos meses junho e julho, incluindo esse início de agosto, já foram concedidas 573 medidas protetivas.

Voltando a atenção para Mossoró, o quadro também requer atenção. Dados do relatório da Patrulha Maria da Penha, da Guarda Civil Municipal, mostram que no período entre 07 de dezembro de 2020 a 27 de julho de 2022, foram atendidas pela Patrulha um total de 348 ocorrências registradas pela Central de Operações da Guarda Civil de Mossoró. Entre essas: ameaças, cárcere privado e tentativa de homicídio. No âmbito da violência doméstica: violência psicológica, moral, sexual doméstica e violência física, crimes tipificados pela Maria da Penha.

Ainda de acordo com relatório da Patrulha Maria da Penha, em Mossoró, no que diz respeito às visitas periódicas realizadas às mulheres com medidas protetivas de urgência e que são acompanhadas pela Patrulha, no período entre 7 de dezembro de 2020 a 27 de julho de 2022, foram realizadas um total de 447 visitas.

Segundo Jamille Silva, coordenadora da patrulha Maria da Penha, assas visitas registradas são as feitas as mulheres em situação de violência com medidas protetivas de urgência expedidas pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, da comarca de Mossoró, e que são acompanhadas pela Patrulha.

Dados da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), de 2022, também alerta para o problema da violência doméstica e familiar. De janeiro a maio desse ano foram registradas 137 Medidas Protetivas e 336 Boletins de Ocorrência.

Para a campanha do Agosto Lilás, a coordenadora da Patrulha Maria da Penha afirma que algumas atividades já foram desenvolvidas, outras estão agendadas e outras ainda estão sendo programadas. “Além da participação no seminário de abertura com todos os órgãos que compõem a rede de atendimento e proteção às mulheres em situação de violência, no dia 7 haverá uma Ação Coletiva no “Viva Rio Branco” em comemoração aos 16 anos da Lei Maria da Penha. Além disso, a Patrulha também vem realizando ações educativas nas escolas da Rede Municipal de Mossoró às Sextas-feiras”, informa.

Com o objetivo de tornas as ações de enfrentamento mais efetivas, a Guarda Municipal de Mossoró reforçou os canais de denúncia pelos quais a população pode denunciar. As denúncias podem ser feitas gratuitas e 24h por meio do 153 ou através do (84) 9 8631-700. Por esses canais o denunciante pode solicitar o efetivo em serviço.

 

Programação do Agosto Lilás do NEM 

O Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir (NEM), vinculado à Faculdade de Serviço Social (FASSO) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), que atua como rede de apoio a mulher, não só no mês de agosto, mas com atividades o ano inteiro, preparou uma programação toda voltada para a campanha.

De acordo com a professora Suamy Soares, coordenadora do Núcleo, várias ações já foram realizadas e outras estão para acontecer dentro e fora da universidade, e também em conjunta com as redes de enfrentamento.

Na última quarta-feira (03/08) foi realizada na Uern, já dentro da programação do Agosto Lilás, uma mesa redonda com as professoras Fernanda Marques, Ilidiana Diniz e Fernanda Abreu, com a temática “Assédios na universidade: desafios atuais para prevenção e enfrentamento”.

“A atividade de ontem sobre assédios na universidade também marcou o lançamento da Comissão Permanente de Acompanhamento da Política de Enfrentamento a Violência Contra Mulher e Assédios na Uern, da qual o NEM faz parte”, destaca.

Programação do NEM

16/08 – Roda de conversa, às 8:30, na convivência da UERN.

“Mulher, a culpa que tu carrega não é tua”: diálogos feministas sobre relacionamentos abusivos”.

17/08 – Mesa Redonda, às14:30, no Auditório da FASSO.

“Semeando a liberdade e desconstruindo as relações de violência contra as mulheres”.

24/08 – Nem vai a comunidade, às 14h no Abolição. (Atividade com as mulheres artesãs do Abolição IV)

28/08 – Oficina no CRAS Sumaré, às 15h.

“Como identificar e enfrentar a violência contra as mulheres?” (Atividade com o grupo de mulheres do CRAS Sumaré)

 

Relação entre dependência financeira e violência contra mulher

A violência contra mulher afeta a todas as mulheres, no entanto, ela chega diferente para cada uma delas. Quando se avalia a situação a partir dos recortes de classe e raça, constata-se que a situação se agrava. Mulheres negras, mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, são as mais afetadas.

A advogada criminalista, Suziany Araújo, em seu trabalho de conclusão do curso de Direito, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), fez uma análise jurídica e social da violência de gênero, envolvendo dados locais (Mossoró-RN) e nacionais. A pesquisa tinha como objetivo buscar elementos que avaliassem o perfil das vítimas de violência doméstica, incluindo as que foram vítimas de feminicídio.

Suziany Araújo

Em sua pesquisa, realizada em 2018, foram avaliados dados sobre a violência doméstica e familiar, e o perfil social das mulheres que foram mortas pelos seus parceiros em Mossoró.

Segundo Suziany, que também faz parte da Comissão de Direito Criminal e da Mulher Advogada (OAB Mossoró), os processos foram consultados na 1º Vara Criminal, e nos aspectos referentes a ocupação, constatou-se que a maioria das vítimas do crime de feminicídio dependiam economicamente de seus companheiros. “Os dados refletem a necessidade de políticas públicas no auxilio as mulheres vítimas de violência doméstica. As mulheres que vivem em situação de violência elas precisam ter condições financeira de sair das relações abusivas”, destaca.

 

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Aryanne Queiroz Destaque Sem categoria

MULHERES, LEIAM(,) MULHERES!

Extremistas mostram o que mais os assusta: uma menina com um livro.(Malala Yousafzai)

Desde pequena amo ler, porém, pelo que me recordo, a maioria dos livros que li foram escritos por homens. Da Literatura Infantil, com certeza as leituras que mais me recordo são dos Irmãos Grimm: Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira (Cinderela), Bela Adormecida, Branca de Neve e os Sete Anões, Rapunzel. Dessas histórias, todas as mulheres eram passivas, precisavam ser “socorridas” de alguma forma por homens (a maioria príncipes), os quais as salvariam de alguma situação embaraçosa, pois eles, nesses contos, são os heróis, aqueles que sempre chegam na hora certa, demonstrando bravura e perfeição, garra e determinação. Lembro, vagamente, de me questionar sobre o porquê que as mulheres eram tão ingênuas, tão dóceis, tão frágeis…Cresci acreditando nisso. Me envergonho? Talvez. O que posso dizer é que fui uma menina, fruto de uma geração que também acreditou nisso e que sofreu ao se deparar com a realidade: homens batendo em mulheres nas ruas, gritando e esmurrando sem ninguém chegar perto para socorrer. Lembro-me de acordar, várias vezes, assustada, ao escutar gritos de mulheres sendo espancadas em frente a minha casa, dentro de carros, em cima de motos, no canto dos muros, deitadas no asfalto, enquanto a vizinhança olhava pelas frestas das janelas, sem reagir, sem socorrer, sem fazer absolutamente nada, como se aquele show de horrores fosse natural. Eu não conseguia mais dormir: voltava pra cama e ficava questionando os motivos pelos quais aquelas mulheres apanhavam tanto; me perguntava se “o príncipe” delas iriam aparecer para salvá-las. Só depois de passar por desilusões amorosas na adolescência foi que a ficha caiu: não existe “príncipe”, não existe. Claro, não estou aqui dizendo que não existem homens de boa índole. Não é isso. Estou aqui querendo mostrar que o que estava escrito nos livros infantis que li era pura ilusão, mas que não me foi explicado isso por ninguém. Aqueles livros que li eram produzidos por homens e lá estava o ideal, o vir-a-ser, o desejo deles de serem algo que não são. E nada disso foi explicitado. E essas histórias continuam se reproduzindo por aí, cabe a nós explicá-las para as nossas crianças que são fantasias. Cabe a nós também ler mais histórias reais, como a história da menina Malala. Quem dera ter lido, na minha infância, sobre meninas/mulheres reais, sobre a coragem dessa criança que enfrentou terroristas (homens!) para ter o direito de ler! Que sobreviveu e luta para que outras mulheres possam ter acesso à Educação. Quem dera que nas próximas gerações tenhamos mais Malalas, fazendo um percurso diferente e transformando vidas, através da escrita e da leitura. Almejo que com um livro na mão, nossas meninas sejam corajosas e não esperem por heróis, pois elas podem ser as heroínas das suas próprias vidas! Descobri tarde esse poder que me pertence, mas não tão tarde ao ponto de não me mover para plantar as minhas sementes na escrita. Escrevo para que meninas/mulheres possam ver que nunca é tarde para transformar o mundo através da leitura. Que possamos combater o terrorismo do dia a dia com livros – e de preferência, com livros escritos por mulheres que lutam, para nos inspirar e fugir das ilusões que tentaram/tentam inserir em nossas mentes e nos anestesiar, a todo custo.

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Destaque Saúde e sexualidade Sem categoria

Sexualidade feminina: os tabus que atrapalham o prazer

A sexualidade feminina é baseada em preconceito, tabus, crenças e muita censura. Numa sociedade machista/patriarcal as mulheres aprendem desde cedo que sua função é proporcionar prazer, procriar, que precisam ser comportadas, não podem falar abertamente sobre sexo, sobre seu próprio prazer e seus desejos. Nesse sistema que ainda se sustenta, as mulheres foram e, apesar de alguns avanços que decorrem das lutas em busca da igualdade de gênero, continuam sendo educadas dentro de uma estrutura conservadora, numa sociedade que julga mulheres que falam abertamente sobre sexo.

O fato é que toda essa estrutura atinge diretamente a capacidade da mulher sentir e viver o prazer sexual, livre de culpas, medo, insegurança. Dessa forma, acarretando uma série de outros problemas que chegam a interferir na sua qualidade de vida. Algumas mulheres não tem receio de procurar ajuda de um profissional quando sentem que existe algo de errado com sua vida sexual. Porém, existem as que não conseguem e acabam convivendo com alguns transtornos, as vezes até sem ter consciência de que se trata de um problema de saúde.

Quando falamos dos problemas que afetam a vida sexual das mulheres, não há como não evidenciar a questão das disfunções sexuais que muitas vezes são frutos desse tipo de educação pela qual passam as mulheres. A dispareunia (dor durante o ato sexual), ausência de desejo, falta de lubrificação e anorgasmia (ausência do orgasmo) são algumas das reclamações que chegam ao consultório da fisioterapeuta pélvica, Dayse Bezerra.

“Podemos dizer que as disfunções sexuais femininas são condições que afetam a qualidade da vida sexual da mulher, ou seja, condições que afetam o ciclo da resposta sexual. A grande questão aqui é que a maioria das mulheres não compreende essas queixas como um problema de saúde e acredita ser normal conviver com elas. Isso, por sua vez, só agrava o problema, pois elas não procuram tratamento e passam grande parte da vida insatisfeitas sexualmente, podendo desencadear transtornos físicos e até psicológicos”, explica.

Para Dayse, a sexualidade feminina ainda é um tabu e parte das disfunções tem origem na falta de autoconhecimento. “A maioria das mulheres não conhece o assoalho pélvico, tão pouco sabem a sua função e importância e é impossível falar de disfunções sexuais sem falar desse grupo muscular e educação sexual repressora. Nós crescemos ouvindo: ‘tira a mão daí menina!’ ‘Isso é feio!’. Enquanto os meninos são estimulados a adorarem o pênis como um troféu”, diz.

Dayse ressalta que entre as possíveis causas que contribuem para as disfunções sexuais estão: a educação sexual religiosa quando é repressora. “Quem nunca ouviu que masturbação é pecado?”, questiona. A pressão sexual, ou seja, a mulher não sente vontade de transar, mas se vê obrigada a ter relação para agradar o companheiro; condições ginecológicas (quadros inflamatórios e infecciosos); abuso físico (abuso sexual, estupro, toque não consentido, por exemplo) e psicólogo. “Vale frisar aqui a importância de uma avaliação minuciosa do caso de cada paciente, pois não são apenas causas psicológicas que levam as mulheres a desenvolverem disfunções. Tanto existem casos que decorrem da parte psicológica quanto da parte biológica”, explica.

O ponto de partida para resolver o problema, segundo a fisioterapeuta, é a informação aberta e de qualidade. Quanto mais falarmos sobre o assunto, mais mulheres se sentirão acolhidas e buscarão por ajuda. Ela considera indispensável incentivar a mulher a conhecer o próprio corpo.

“Não podemos identificar uma anormalidade se não entendemos o que é normal. Na minha consulta, uma das primeiras perguntas que faço é se a mulher tem costume de olhar a sua vulva no espelho, e muitas relatam que não, e isso independe da idade. Então a minha primeira sessão é toda voltada para a educação em saúde, durante a qual apresento todos os músculos do assoalho pélvico, suas funções, importância sexual, de continência urinária e fecal, e do outro lado da mesa encontro rostinhos maravilhados entendendo o seu corpo muitas vezes pela primeira vez. É incrível vê-las despertando o amor próprio e acreditem, isso interfere e muito no sucesso do tratamento”, revela.

A necessidade das mulheres serem assistidas por profissionais qualificados é mais uma observação importante. De acordo com Dayse não é raro relatos de mulheres que procuraram ajuda e ouviram algo como “você precisa relaxar mais”.

“O tratamento das disfunções sexuais muitas vezes conta com uma equipe multiprofissional de fisioterapeuta pélvico, ginecologista, psicólogo… e cada um exerce um papel de extrema importância no diagnóstico e condução do tratamento. Então, mulher, leia, pesquise em fontes seguras, converse com outras mulheres e faça uma escolha segura quanto aos profissionais que irão te assistir”, orienta.

As disfunções sexuais apresentam sinais e um deles é a dor na relação, podendo ser relatada como uma dor mais superficial ou profunda, conforme explica. “Vou falar uma frase para vocês que deve se tornar um mantra: dor na relação nunca será normal, nunca! Não importa se a dor ‘é só no comecinho’ como eu costumo ouvir no consultório. Nós fazemos sexo para ter prazer, se ele te gera dor, ardência, desconforto, temos aí um sinal de alerta. Procure ajuda!”, explica.

São muitas as dúvidas que norteiam as mulheres sobre seus corpos e seu prazer. Em sua página @simplificando_a_pelve, espaço através do qual Dayse amplia as discussões para além do espaço físico da sua clínica, abordando vários temas relacionados à fisioterapia pélvica e obstétrica, assim como a saúde da mulher em vários aspectos, ela consegue chegar a muitos questionamentos sobre esse universo que é a sexualidade feminina.

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Destaque Matracas Literárias Sem categoria

O FILHO DE MIL HOMENS E A DOR DA INCOMPLETUDE

Como diria Alceu Valença, “A solidão é fera, a solidão devora”, e foi em meio ao isolamento pandêmico, que me vi acolhida na escrita simples e lírica de Valter Hugo Mãe, premiado escritor português e declaradamente apaixonado pelo Brasil. O filho de mil homens é o quinto romance do escritor, e nele somos devorados pelo vazio e angústia de seus personagens que, cada um a seu modo, buscam uma forma de preencher o que lhes falta. 

Crisóstomo é um humilde pescador que, aos 40 anos, sentia-se pela metade – faltava-lhe um filho. E, reconhecendo-se infeliz, partiu em buscar de encontrar uma criança que pudesse adotar. Crisóstomo “acreditou que o afecto verdadeiro era o único desengano, a grande forma de encontro e de pertença. A grande forma de família”. A sua busca chegou ao fim quando, em seu trabalho, apareceu Camilo, um jovem órfão de 14 anos, “um rapaz carregado de ausências e silêncios”. Imediatamente o pescador percebeu que era ele. Camilo é o filho que tanto esperou e não hesitou em pedir ao rapaz que o aceitasse como seu pai. Camilo, emocionado, logo correspondeu às expectativas do pescador e aceitou ser seu filho. Agora, Crisóstomo sentia-se inteiro. 

Isaura é filha única, que muito cedo foi arranjada para o filho dos vizinhos. O que seus pais não esperavam era que a moça fosse se entregar ao rapaz antes do casamento, ainda menor de idade. Desvirtuada, Isaura passou a ser enjeitada; “envergonhava-se de ter um dia oferecido tudo ao amor”. Com a decepção de ver-se abandonada, Isaura não comia e passou os anos a definhar. Ela “não queria ser ninguém. Queria diminuir até ser nada”.Chegou aos trinta anos muito magra e por dentro era  como estava por fora: a definhar.

Antonino é “um homem dos que não gostavam de raparigas e precisavam de fazer de conta”. Educado pela mãe, cresceu confuso com seus próprios sentimentos. E, entre seguir sua orientação sexual e corresponder às expectativas de sua mãe que não aceitava o filho como era, viu-se perdido.
O livro nos apresenta personagens que, inicialmente, nos parecem histórias avulsas, mas que ao longo do enredo vão se encontrando e se complementando. O homem pela metade, o órfão, a mulher enjeitada, o maricas, assim como os demais personagens que são demasiadamente humanos. O filho de mil homens é um verdadeiro mergulho em nós mesmos: é um livro que nos atravessa, não saímos ilesos dele, pois nos mostra que o acolhimento salva, estreita relações e, a partir delas, nos sentimos pertencentes no mundo.

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Colunistas Destaque Natalia Santos Sem categoria

Swallow: Um retrato da opressão feminina

Swallow1 (2019) é um thriller psicológico de Carlo Mirabella-Davis cuja trama gira em torno da vida de Hunter, uma dona de casa grávida, que, pressionada para satisfazer as expectativas do marido e dos sogros, desenvolve um hábito perigoso de engolir objetos não comestíveis.

Hunter é a figura da “esposa perfeita” dedicada ao lar e ao marido, mas que tem sua personalidade completamente tolhida em função de atender às expectativas impostas por uma sociedade patriarcal. Quando descobre sua gravidez, passa a desafiar o seu corpo engolindo objetos nocivos como forma de retomar o controle sobre sua própria vida.

O filme é recheado de elementos que enfatizam a solidão e o silenciamento da figura da mulher, sendo reforçado, inclusive, com a presença de outras personagens femininas que reproduzem padrões de comportamentos machistas, o que nos faz experimentar ainda mais a sensação de clausura no próprio corpo enfrentada pela protagonista.

Embora tenha uma resolução demasiado simplista para o problema que se propõe a discutir, Swallow é um filme que merece ser visto, discutido e compartilhado, justamente por abordar questões tão frágeis e presentes na vida das mulheres. A atuação de Haley Bennett (Hunter) é um dos pontos altos do longa, juntamente com uma estética e fotografia primorosas. O suspense aqui se constrói de maneira gradativa, mas é impossível não ansiar pelo desfecho da trama.

Engana-se quem pensa que é somente mais uma história de cinema, isto porque muitas mães, avós e tias nossas vivenciaram formas de silenciamento e aniquilamento das próprias escolhas. Nesse ponto, a representatividade no cinema revela-se, mais uma vez, de extrema importância ao dar voz às inúmeras mulheres que sofreram ou sofrem qualquer forma de violência psicológica e opressão, trazendo um pontinho de esperança para nossa luta, que, embora não esteja perto do fim, vem ganhando cada dia mais força.

1. Swallow, palavra do inglês, em português significa engolir, deglutir.