Jornalista Chilena usa o jornalismo para dar visibilidade a projetos de mulheres que lutam pela conservação ambiental Foto: Arquivo pessoal

Paulina Chamorro e a difusão do protagonismo ambiental das mulheres

A força feminina tem sido finalmente reconhecida como importante elemento de restauração do planeta. Em todas as áreas, destacam-se histórias de mulheres que empenham anos de dedicação para defender causas globais. Não é de estranhar que os nomes de Malala Yousafzai e Greta Thunberg revelaram-se grandes referências ainda na adolescência. Há uma dor que se iguala. Essa urgência por respeito e restauração do planeta parece encontrar eco no mais profundo da alma feminina, violentada diariamente em seus direitos e valores.

No país, iniciativas como a da jornalista Paulina Chamorro dão visibilidade a pesquisadoras que lideram grandes projetos ambientais. O Mulheres na Conservação, concebido e realizado juntamente com o fotógrafo João Marcos Rosa, está em sua segunda temporada e tem repercutido em várias plataformas da mídia, esse trabalho de mulheres ainda pouco registrado. Paulina também é integrante da Liga das Mulheres Pelo Oceano, um movimento em rede de mulheres em prol da conservação dos mares. 

A Revista Matracas convidou Paulina para conversar com nossas leitoras, ávidas por conhecimento e motivação. 

MATRACAS –  Paulina, nosso público é prioritariamente de mulheres nordestinas do sertão. Que mensagem seus projetos podem levar a essa realidade?

PAULINA – Eu acredito que quando a gente evidencia a força e o protagonismo de mulheres à frente de projetos de conservação, que não necessariamente precisam ser acadêmicos, isso nos mostra que a gente tem caminhos. Caminhos que já foram abertos. A gente aprende também que temos mulheres que já estão na luta há um certo tempo trabalhando por isso. Então, além da inspiração e do exemplo, a gente percebe que já foi um terreno que foi aberto por essas mulheres, que passaram por tantos desafios quanto às vezes essa outra mulher que está lendo, ou acessando, ou que está vendo pelas redes sociais algum episódio da série, está passando. Então eu acho que a troca de informações, mas principalmente através da comunicação, evidencia o trabalho de mulheres e faz muito mais do que só o exemplo. Nos mostra que os desafios são comuns, e que a gente pode se ajudar mutuamente. 

MATRACAS  – De que forma é possível fazer parte dessa conservação do meio ambiente, mesmo morando em uma região tão desfavorecida? Como participar da luta?

PAULINA – Estando em regiões mais desfavorecidas, aí a gente tem a importância justamente do protagonismo feminino e a importância de a gente colocar a nossa luta à frente. Porque são as regiões menos favorecidas e justamente também as mulheres que são os principais atingidos, por exemplo, da injustiça climática. Ou seja: dos grandes impactos climáticos gerados pelo ser humano no planeta, as principais áreas afetadas são justamente essas desfavorecidas. Pra participar da luta? Acredito que seria continuar sendo resiliente, continuar trabalhando com o olhar no coletivo, porque são essas soluções que já vêm sendo desenvolvidas e desempenhadas por essas pessoas e nessas regiões especialmente – carentes de tantas coisas –  que é chamado hoje resiliência. A resiliência a tantos desafios e que vão se tornar piores. Mas acredito que a grande lição que a gente tem que aprender e compartilhar nesse caso, que é essa participação da luta, é mostrar esse censo do coletivo. De que uma luta não é só de uma região, é uma luta coletiva, de todos. 

MATRACAS – Mossoró, cidade sede da Matracas, é historicamente marcada pelo primeiro voto feminino da América Latina, por Celina Guimarães. Qual o potencial da consciência política para mulheres que já trabalham no campo, buscando recursos e atividades sustentáveis?

PAULINA – Eu acredito que o trabalho em campo e o empoderamento da mulher no campo – porque a gente sabe que aqui no Brasil e na América Latina ainda é um grande desafio; a gente ainda vê que mulheres não têm acesso a recursos para cuidar de sua terra, do seu roçado, ainda dependem, em algumas áreas, muito dos homens – temos uma luta sim feminista ainda no campo, mas ao mesmo tempo são exemplos que vêm do campo, de associativismo, que mostram como mulheres líderes – a gente tem líderes de reservas extrativistas, líderes de colônias de pesca hoje. Então como essa organização e essa visão feminina de futuro integrado para todos e todas pode ser um caminho que a gente tem que levar a partir de agora no planeta. E isso é uma consciência política; porque a consciência política não é a que leva à questão do partido. Ela é justamente apartidária. A que trabalha sobre os recursos, sobre direitos das pessoas, de acesso. A que trabalha com a democracia, ou que trabalha contra a injustiça social e ambiental. E a mulher hoje no campo e no litoral tem desempenhado um papel muito importante de liderança.

MATRACAS –  O que falta acontecer para que as mulheres sejam vistas com igual visibilidade em suas lutas?

PAULINA – Acredito que a gente está em plena luta. E essa é uma luta que nunca acaba. O que falta acontecer é que a gente consiga ter a igualdade de gênero. A gente poder ter, num espaço de discussões e de tomada de decisões, o mesmo número de homens e de mulheres. Eu acredito que a mulher enquanto base, com seu conhecimento e com essa luta, agora a gente precisa dar esse salto e exigir – já que metade da população ou um pouco mais é de mulheres – a gente precisa ver essa representatividade nas tomadas de decisão. Nos lugares de poder: tanto político, quanto da iniciativa privada. A liderança das mulheres é uma realidade que precisa chegar agora.

MATRACAS – Que conselho você dá para as jovens que nos leem e gostariam de saber fazer mais pelo lugar onde vivem?

PAULINA – Eu gostaria de dar o conselho de continuar se inspirando, de apoiar mulheres, de falar e de reconhecer o trabalho de mulheres. A gente não sabe a força que tem escondida numa palavra de apoio, num carinho, ou numa visibilidade que você dá ao trabalho de mulheres. Eu acho que quando a gente fala de ‘não soltar a mão de ninguém’, a gente está falando disso. Se a gente quer que nós mulheres tenhamos as mesmas possibilidades e cheguemos nos lugares de poder, a gente precisa começar entre a gente mesmo. Se valorizando, apoiando, dando a mão, conhecendo o projeto, dando força, ajudando. É um caminho coletivo; é um caminho de mãos dadas que é o futuro e o presente construído por mulheres. E é esse mundo que eu espero viver em breve.

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